Arquivo do mês: outubro 2011

VMB 2011: MTV expõe suas contradições

Pra quem está antenado em música, e justamente por isso não vem mais dando bola pra MTV há um bom tempo, de repente nem sabia que iria ao ar nesta quinta-feira o 16° Video Music Brasil, ainda a maior premiação musical brasileira.

A edição passada do evento, 2010,  foi marcada por ser a mais fajuta e vergonhosa de todas as edições da premiação .  A emissora que há muito se afastava da boa música (desde 2007 para ser mais exato, quando a MTV anunciou que abandonaria os videoclipes) em 2010 fez uma premiação que ajudou a sepultar seu nome como uma marca de respeito entre a classe musical. Como não é boba nem nada, vendo que grande parcela dos músicos e o resto do público mais antigo, que um dia a levou a sério,  foram abandonando o barco.  A emissora acabou optando por reformular quase que totalmente a sua grade de programação, recorrendo a quê? Muita música! E muitos músicos! Mas deixemos isso para depois.

O fato é que essa edição da tradicional premiação, contou com coisas muito novas. Os coloridos simplesmente sumiram. Foram propositalmente jogados pra escanteio das possíveis premiações. O Restart até deu as caras por lá, mas somente pra fazer um discurso constrangedor acerca do vexame que passaram sendo vaiados por diversas vezes na edição passada, e entregar um dos prêmios da noite.  A presença massiva mesmo, em números de indicados, foi garantida pelas diversas cenas independentes que existem por aí. Vários dos expoentes da cena underground estavam presentes e/ou concorrendo.

Os destaques foram pra Criolo, que ganhou três prêmios: melhor disco (Nó na orelha), revelação e melhor música (Não existe amor em SP) e Emicida, que levou dois prêmios, os de clipe do ano (Então toma) e artista do ano. Criolo e Emicida têm vários pontos em comum, apesar de musicalmente estarem em fases bem distintas de suas carreiras. Representam uma renovação no rap nacional. A era dos discursos à La Racionais MC’s ficou pra trás. O rap agora é polido, arrojado e quebra vários de seus próprios tabus. Quer sair do gueto da mesmice novamente.

Caetano e Criolo

Além deles, diversas bandas deste cenário independente que fervilha pelos quatro cantos do Brasil concorreram ou se apresentaram na premiação:  Apanhador Só (RS), Marcelo Jeneci (SP) , Copacabana Club (PR), Mombojó (PE) e uma grande leva de artistas e bandas. Foram poucos os destaques desta edição que já gozam de um reconhecimento por parte do grande público. Dos premiados, o único que poderia ser considerado um dos grandes do cenário nacional, seria a Fresno, que ganhou a categoria mais ridícula da noite, a de melhor clipe molhado (?!).

No início do ano já era possível deduzir pelas clássicas chamadas estranhas da emissora, que algo iria mudar. E isso de fato aconteceu, a MTV esse ano girou totalmente a sua programação e seu foco. Foi buscar sustentação na cena independente, porque quer voltar a ser a “casa dos músicos”, da nova geração. Isto pode garantir para emissora alguma chance de sobrevida, de reaver o seu prestígio. Os veteranos foram deixados de lado para apostar muitas fixas no que está surgindo e o que há muito já existe, mas por fora do esquema da MTV. O que a emissora fez foi pegar alguns desses artistas, poucos se comparado aos tantos que lutam por aí, e preencher a programação com uma variada gama dos melhores expoentes de cada gênero. As apostas estavam sendo feitas.

Emicida, aposta mais promissora da MTV

Claro que os mais velhos também tiveram vez. Estavam lá marcando presença no VMB: Caetano, sempre muito espertinho (ou seria oportunista?), dando a benção para o “novato” Criolo. Foi um momento muito simbólico, mas algo corriqueiro em se tratando do Caê.  Maria Gadú não me deixa mentir. Arnaldo Antunes (VJ da casa), Erasmo Carlos, Marcelo Camelo, Marina Lima, Nação Zumbi, Marcelo D2, e mais um monte de veteranos de VMBs, que dividiram as atenções nos shows e também as indicações aos prêmios com diversos artistas de cenários que nunca tiveram vez na emissora. É o caso de Gaby Amarantos, Banda Uó e Garotas Suecas, que fazem parte do chamado “New melody” ou “New brega”. É o caso também de Michel Teló, representante do pavoroso sertanejo universitário, que não concorreu a nada, mas foi convidado a entregar um prêmio.

A MTV volta a apostar todas as suas fichas na música, contratando novos VJs com largo conhecimento e reconhecido prestígio no cenário musical, apostando em novas bandas e aumentando o número de programas  musicais. Mesmo assim parece ainda não ter decidido um rumo certo, apesar de ter dado um grande passo à frente. Ainda é muito cedo para dizer que essa jogada vá render muitos frutos, sinceramente não sei se Emicida, Criolo, Jeneci e afins, tem capacidade de garantir para a emissora o público e a publicidade que tinham com Restart, Cine e Nx Zero.

Cabe agora aos músicos brasileiros, tentar ocupar da melhor forma possível esse espaço que está voltando a se abrir. O VMB 2011 mostrou exatamente isso: artistas talentosíssimos dividindo espaço com outros muito aquém de serem apostados como os melhores de seu nicho. Nunca uma premiação da MTV tinha sido tão diversa e tão cheia de contradições. Ao mesmo tempo em que se propõe ser a casa de todos, se não acertar o rumo das apostas, pode ter que terminar recorrendo aos seus filhos menos ilustres, os coloridos do último verão, para salvar os investimentos dos seus acionistas.


Como começar?

Estava pensando sobre a minha primeira postagem, não que fosse algo a ser remoído por muito tempo, mas todo mundo quer começar bem, seja lá no que for começar. Resolvi chamar para me acompanhar uma figura ilustre, nada menos que Chico Buarque. Segue um ensaio sobre Chico e a resenha do seu novo disco, “Chico”. Batizar seus lançamentos nunca  foi muito o seu forte mesmo.

Ainda não decidi como vai ser estruturado o blog, nem a frequência. Mas pretendo publicar um post por semana, que irão variar entre ensaios sobre música, análises criticas, resenha de discos, e mais algumas coisas que eu ainda estou planejando.

Por hora, se divirtam aí com o Chico.

Não esqueçam de deixar os elogios entusiasmados para que eu siga escrevendo e achando o máximo! Caso tentem, mas não consigam, prometo ler com muito respeito.

Chico está velho?

A princípio a resposta pode parecer óbvia: claro que está! Afinal, 67 anos não é pouco. Minha avó tem só 5 a mais. Mas a pergunta não se refere propriamente à idade de Chico, mas sua relevância para o universo musical atual. Aí é que mora o X da questão. Chico Buarque, afinal, representa o que para a música nos dias de hoje? No aspecto artístico, que  importância  recai hoje sobre sua obra ?

Já virou um clichê atribuir tons de genialidade a tudo que Chico fez, e com um pouco de boa vontade, ao que ainda faz. Chico, no Brasil, é sinônimo de poesia e música de extrema qualidade. Justiça seja feita, ele fez por merecer tal status.  Ao lado de Caetano, Chico Buarque foi quem melhor traduziu o sentimento, em suas diversas esferas, de uma geração que questionara o status quo, seja na arte, na política ou no comportamento. Chico foi, sem sombra de dúvidas, o melhor porta voz que a geração brasileira influenciada pelo maio de 68 poderia ter. Era a figura de um artista militante, um compositor inquieto que sempre primou pela força de suas palavras, mas não somente.  Seu exemplo enquanto artista  engajado na transformação da sociedade, também gabaritou Chico por algumas décadas.

A partir dos anos 80, o lançamento de discos e turnês começou a sofrer uma substancial diminuição para Chico. Não se sentia à vontade no palco (mas isso fora desde sempre), as composições demoravam muito mais pra sair e as brigas com a gravadora impossibilitavam o artista de lançar seus álbuns. Ainda assim, essa época contou com pérolas de sua carreira.

Nos anos 90 a sua profusão criativa diminui ainda mais. Esclareço que ainda estou falando de sua música, que nessa época começou a dividir espaço com outra de suas paixões, a literatura.  Como resultado, lançou apenas dois discos de inéditas nesta década.

Adentrando os anos 2000, a média continuou a mesma. Sobre isso, Chico comenta no documentário musical Palavra (en)cantada que não via mais tanta relevância e possibilidade de alcance da sua obra musical. A literatura acabava representando muito mais para os seus anseios criativos. De fato, o verdadeiro artista sempre procura o desafio. A música, para Chico, não significava mais isso.

Chegamos ao presente. A realidade brasileira mudou muito nesses 40 anos. O cenário musical acompanhou essas mudanças. Não só a música se modificou, mas o mercado que ela movimenta também. As gravadoras não têm o mesmo poder de outrora, nem querem mais as mesmas coisas. O investimento em artistas é muito mais a curto prazo.  Os “velhos” não têm vez, e Chico está velho.

Acontece um fenômeno interessante com relação a Chico Buarque: o grosso do seu público, que compra o CD via internet, que lota os seus shows, gira em torno da faixa dos 25 e 35 anos. Geração essa, que não vivenciou o período de maior importância em sua carreira, mas que cresceu em contato com a sua obra. Sua música era algo mais palpável, estava ao alcance da mão há 15 ou 20 anos atrás. Com o passar dos anos, esse alcance foi diminuindo, o “novo” vem ocupando esse espaço. As gerações de adolescentes que estão surgindo enxergam Chico como algo que está enterrado no passado. O grande problema é que o novo não superou o velho. As porcarias que existiam há 40 anos se reformularam e estão sempre nos assombrando. Mas se nivelarmos por cima, o que está no lugar desses velhos?

Chico, Caetano, Gil e mais um monte de medalhões daquela época, não apitam mais nada no cenário musical. Caetano vem tentando se aproximar da juventude indie, tocando com uma banda extremamente jovem, fazendo parcerias com artistas novos, como Maria Gadú. Gil, depois de seus longos anos como ministro, voltou com estardalhaço, cheio de modernidades aliadas ao forró mais clássico. Não deu em nada.

Chico se manteve, como há muito vem fazendo, à margem do cenário. Quando quer, reúne uns amigos e grava um disco. Até se mostrou muito moderno com o lançamento de “Chico” (resenha a ser publicada em breve). Mas para quem assistiu aos vídeos exclusivos da pré-venda de seu último CD, pode testemunhar um Chico ainda avesso à forma como se trabalha com música hoje em dia. Mal sabe gravar suas próprias músicas no computador. E não faz nenhuma questão de “se adaptar” ao mercado. Chico sabe que sua época passou, não quer concorrer e disputar espaço com a geração que está chegando. Ele não precisa, seu público está lá. Claro que em número bem diminuto, mas ainda está lá, ávido por sua música e poesia, apesar de não representar para os dias de hoje, nem a sombra do que sua obra já fora. Chico envelhece com a dignidade que só um grande artista, ciente das demandas de seu tempo e de sua imensa contribuição para tais, teria capacidade de fazer.

A relevância artística de Chico Buarque já não é mais a mesma, e foi ele quem primeiro percebeu isso. Sua criação musical se resume a um disco a cada seis ou sete anos e os jovens praticamente não lêem livros. Não há mais espaço a ser conquistado nesse cenário. Fisicamente, Chico está velho.  Porém, sua poesia e sua dignidade artística estão intactas