Arquivo do mês: novembro 2011

Fora do Eixo, mas lutando para entrar.

O universo musical está sofrendo uma grande mudança no mundo todo, e a cena musical brasileira, sendo tão rica e variada, também não poderia estar de fora desse processo. A necessidade de artistas dominarem novas ferramentas de divulgação de sua arte acaba, inevitavelmente, forçando-os a explorarem outras formas de fazer essa divulgação. A internet é o caminho quase que obrigatório para o músico mostrar seu trabalho. Mas não termina aí, o caminho do artista nessa nova realidade é muito cheio de variações também quando o assunto é o aspecto comercial da sua carreira. Vivemos um período onde não basta o sujeito ser um “mero” compositor, ele acaba tendo que ser um empresário do ramo. E nessas mudanças nos processos que vem depois da composição é que mora uma das maiores polêmicas musicais dos últimos anos: a atuação do coletivo “Fora do Eixo”.

Para quem ainda não sabe, trata-se de um grupo muito articulado política e estruturalmente, que vem instrumentalizando grande parcela de uma cena de artistas independentes brasileiros. O embrião desse coletivo se deu em 2000, com a experiência do espaço Cubo, fundado por Pablo Santiago Capilé (criador do festival “Calango” e “Grito rock”). Com o crescimento desse espaço e de seu espectro de ação, foi formado em 2005 o “Fora do Eixo”, um coletivo de gestores de produção cultural independente, com o intuito de criar e dar suporte a uma cena de música independente que sempre fervilhou no Brasil. Nessa época o FdE atuava em cidades como Cuiabá, Rio Branco, Uberlândia e Londrina. A partir de 2011, agora maior e mais influente, a direção do coletivo se muda para São Paulo e cria o espaço CAFESP (Casa Fora do Eixo – SP), baseado na economia solidária e com um funcionamento bem peculiar, incluindo uma moeda própria, o grupo mantém uma estrutura de 18 pessoas pagas para “militarem pela causa”.

Essa moeda, chamada de “cubo card”, é que paga os artistas que fazem parte do cast do coletivo. Explico: uma banda se dedica pela causa independente e faz diversos shows pelo coletivo FdE, ela não recebe cachê, mas sim “cubo card”, que ela pode usar para pagar horas em estúdio, confecção de material de divulgação e várias outros serviços ligados a manutenção de uma banda. Tudo isso graças a essa rede de empresas, profissionais da música e casas de shows que de alguma forma estão ligadas ao coletivo. É uma forma extremamente inovadora no que se refere a pensar a música de uma maneira profissional e pragmática.

 

O grande ataque!

 

Recentemente, esse assunto começou a ser pautado nas redes sócias e jornais impressos com uma força até então não vista, fruto direto de alguns embates acalorados por parte de quem critica e de quem defendo o FdE. Esse texto não pretende ser meramente explicativo, mas uma opinião sobre o que representa o coletivo e que papel cumpre no atual momento. Portanto, compro a briga.

Um dado interessante para o começo da análise: o principal mentor e figura de maior expressão do coletivo, Pablo Capilé, começou sua militância quando ainda era estudante de marketing e publicidade na Universidade Federal de Cuiabá. Este dado não é nada irrelevante para se entender o modus operandi do coletivo e suas raízes sociais. Vale lembrar que o FdE também esteve presente na organização da Marcha da Liberdade que ocorreu em SP, após a proibição da Marcha da Maconha, inclusive defendendo a posição de que se deveria procurar apoio financeiro na iniciativa privada, com marcas que estivessem dispostas a ajudar, como a Coca-Cola.[i]

Se entendermos que o mainstream musical vive uma crise econômica e criativa e, paralelo a isso, temos uma cena independente que não sabe e nem consegue andar sozinha, por estar presa a antigas amarras na maneira de pensar o “negócio música”, chegamos a conclusão que este setor de trabalhadores da música tinha que aprender a usar as ferramentas disponíveis. Nesse caso, os editais públicos para fomentação cultural do então ministro Gilberto Gil deram um grande suporte econômico ao grupo, se tornando uma fonte de renda importantíssima, aliada a busca de recursos na iniciativa privada. A retirada de grande parte desses incentivos é o que alimenta a disputa política que conduzem contra a ministra Ana Buarque de Hollanda. O objetivo era, e ainda é, conquistar um espaço muito maior do que se vislumbrava até então, inclusive político.[ii]

 

O coletivo FdE não apresenta nenhuma ruptura substancial no panorama da exploração do músico e sua obra, apenas muda as relações dessa exploração, que outrora era feita de forma vertical agora adquire uma horizontalização. Os idealizadores desse formato FdE, querem ocupar um lugar nesse imenso mercado musical independente, que existe a sua revelia, e que movimenta muita gente. Pablo Capilé é um homem do marketing, um sujeito extremamente inteligente e articulador, que viu na cena independente da música brasileira um grande filão de negócio. Mas não possui cara de empresário, não se veste como um, é muito moderno se comparado aos empresários da música, mas em última análise, personifica de maneira espetacular uma nova geração de pensadores da “geração pós-rancor”, que defende que a luta de classes e as velhas formas de se fazer política morreram, e é preciso inovar, sempre por dentro do sistema, a maneira de se articular política e socialmente. O coletivo FdE é um movimento político/cultural. É preciso ter isso em mente ao se fazer qualquer análise do seu papel.

De fato, é um dos acontecimentos mais interessantes dos últimos anos. A última grande coisa a acontecer no nosso cenário musical, foi o movimento Mangue Beat, há quase 20 anos. A diferença agora é importantíssima, pois na verdade, ela ocorre na superfície, se dá primeiro no âmbito dos produtores, difusores e empresários, para depois alcançar os músicos. É como se entregassem um projeto, uma linha política para uma classe de “trabalhadores da música” (os músicos), propondo reformas em um sistema que não comporta tanta diversidade, que não dá espaço para o grande volume de arte que se produz em um país tão vasto. É preciso oxigenar esse universo, reformulá-lo, mas nessa lógica a exploração do músico apenas adquire novos formatos, com ares menos burocráticos.

É sabido que diante da enorme barreira que existe para que os artistas cheguem ao mainstream, muitos acabam optando por criar a sua cena, de uma maneira local. E é sabido também que muitos artistas já estão prontos para adentrar o sistema, só falta o empreendedor que os conduza. Ou melhor, faltava. Em um período de mudanças tão grandes na forma como as pessoas se relacionam, via redes sociais, por exemplo, e a forma como essa geração que vive o contato diário com a tecnologia que participa ativamente dessas transformações, é natural que surjam daí grandes expoentes, em várias áreas. Pablo Capilé é um desses, não o único, é claro. Um homem dos negócios, da política e, por que não, da música? Música não é um produto, não une as pessoas? Música não dá para vender, não gera lucro? Claro que sim, a música movimenta milhões e esses milhões vão parar nas mãos de poucos e há bastante tempo, os mesmos poucos. O que o FdE propõe é que se dividam essas riquezas, mas se dividam entre quem? Pode ser que os músicos saiam beneficiados dessa mudança que o coletivo propõe, afinal, algumas migalhas sempre sobram.


[i] “Pablo Capilé, articulador do FdE, assumiu as tarefas relacionadas à comunicação da manifestação, como transmissão online, e seu coletivo também arcou com os custos das flores que seriam distribuídas no dia. Capilé ainda mencionou a possibilidade de patrocínio da Coca-Cola à marcha; segundo seu argumento, hoje em dia as empresas buscam contato direto com os grupos e movimentos sem que seja necessário expor as suas marcas”. Trecho do artigo: A esquerda fora do eixo, por PASSAPALAVRA.

[ii] Pcult (Partido da cultura) surgiu em 2010 meses antes das eleições. Trata-se de um movimento social com vistas ao favorecimento e maior preocupação com as políticas públicas para a cultura. Até então todo o trabalho desenvolvido nesse campo havia sido na instância da sociedade civil. O PCULT passa a ser a ferramenta de conexão desse trabalho com a política eleitoral… O que dá a musculatura, legitimidade e dinâmica ao PCULT é a peculiaridade de, ao mesmo tempo em que admite e estimula a presença de integrantes de todos os partidos políticos, tem em sua maioria integrantes que não estão filiados a partido nenhum. Por Ney Hugo, Portal fora do eixo.

 

O texto acabou não abordando uma porção de enfoques, vários muito importantes mas já bastante e melhor desenvolvidos do que me propunha. O ensaio é uma visão muito pessoal deste fenômeno interessantíssimo que ocorre neste período. Abaixo relaciono os melhores textos, cada um analisando aspectos diferentes sobre o mesmo assunto. Recomendado para quem quer se interar deste debate.

 

http://passapalavra.info/?p=41221 Texto que narra a trajetória da esquerda fora do eixo, a partirdas mobilizações  em higienopolis e a vinda do coletivo para SP.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=9741 Artigo de José Arbex Júnior, com uma visão de esquerda. Muito completo, com uma analise muito interessante sobre as raízes sociais do Fora do eixo.

http://chinaman.com.br/fora-do-eixo-e-longe-de-mim/ Resposta muito honesta do músico e vj da MTV, China, sobre as discussões por causa de opiniões do artista referente ao FdE, que reverberaram no twitter e acabaram em acusações de ambos os lados.

http://www.trezentos.blog.br/?p=6056 A esquerda nos eixos e o novo ativismo, de IvanaBentes, professora universitária e diretora da ECO/UFRJ. Uma resposta ao texto doPASSAPALAVRA.

http://revistatrip.uol.com.br/revista/199/reportagens/ministerio-da-cultura.html Reportagem da revista TRIP que mostra o funcionamento da casa fora do eixo em SP.

http://guaciara.wordpress.com/2011/05/25/sobre-o-cancelamento-do-show-do-elma-no-cedo-e-sentado-studio-sp-noite-fora-do-eixo-por-bernardo-pacheco/ Relato bem extenso, mas muito revelador, do músico Bernardo Pacheco sobre o cancelamento nada honesto do show de sua banda, o Elma, na CASA SP, um dos bares parceiros do FdE. Mantido por Alexandre Youssef, candidato a deputado federal pelo PV nas últimas eleições e um dos principais defensores do FdE.

 

 

 

 

 


O rock morreu?

Claro que eu não sou o primeiro a fazer essa pergunta, aliás, ela já é até meio batida. Eu sugeriria uma troca na questão: a boa música morreu? Sim, porque se analisarmos mais profundamente, aquela velha pergunta sobre a morte do rock, e se considerarmos que o rock é sinônimo de boa música, nada mais é do que perguntar se a boa música morreu. A resposta tem variantes, e é sobre isso que quero debater.

Não é só o rock n’ roll que goza desse prestígio, outros estilos como o jazz, o blues, o soul, o samba também são associados à boa música, e também tiveram seu período áureo, tanto no aspecto da criação quanto no seu alcance popular, mas foi há muito tempo, e hoje se resumem a “guetos de boa música”, não têm mais o mesmo poder e, consequentemente, a mesma importância. Nesse sentido, respondendo a primeira pergunta: sim, o rock morreu! Morreu enquanto estilo capaz de criar bandas e artistas que movem multidões e determinam a maneira de pensar e agir de uma geração de jovens. Até poucos anos atrás, um adolescente canalizava suas angustias e embalava suas rebeldias ao som do rock, era o caminho normal da juventude. Hoje é só mais um.

Enquanto estilo e estética, simplesmente, o rock ainda sobrevive, mas ele não se faz só de estilo e estética, tem que ter também espírito, e este morreu. Alguns podem alegar, e com razão, que ainda nascem bandas genuínas de rock a cada dia, que mantém o tal espírito, mas numa rápida comparação com décadas passadas, quantas são essas bandas hoje? E o mais importante: elas tocam para quem, para que público? Me refiro a quantidade também. Que banda de rock surgida há 15 ou 20 anos consegue lotar um estádio como fazem U2, Paul McCartney, Rush e tantos outros dinossauros?

É preciso levar em consideração que a era dos artistas de massa, que vendem milhões de discos e arrastam multidões, também está acabando. Fora alguns fenômenos do mundo pop que se revezam, em média a cada cinco anos, não existe mais o interesse das grandes gravadoras em criar uma estrutura para apostar em novos artistas a longo prazo. O interesse é sempre pelo caminho mais imediato e estéril. Artistas e bandas que precisam lançar dois ou três discos e investir em divulgação para conquistar um público mais exigente e não circunstancial, acabam “optando” por criar esquemas por fora das gravadoras.  Alguns até conseguem ser absorvidos pelo “sistema”, como Arcade Fire ou Radiohead, mas quase sempre depois de já consolidados no cenário.

E a boa música, morreu? A resposta é categórica: não! Se faz muita música de qualidade em todos os cantos, em várias vertentes. Mas a maneira como esses trabalhos vão chegar ao ouvido de quem gosta de boa música é que mudou, e muito. Antes da popularização da internet, do download, e de ferramentas como o Youtube, o caminho natural da coisa era: a banda consegue uma gravadora, essa  se encarrega de distribuir e divulgar o disco e, se o público aprovasse, estava feito, todos ganhavam. A partir do momento em que aparecem novas maneiras de uma banda ou artista gravar e divulgar o seu trabalho, uma grande transformação ocorre nesse universo. Quem não é mais tão vendável em um período onde a venda de discos cai vertiginosamente, fica fora do esquema, e se quiser sobreviver, tem que criar seus meios. Essa transformação ocorre até hoje, e depois de tantos anos de pesquisa e dedicação forçada, as bandas aprenderam o caminho das pedras para administrarem suas empresas. Não quero dizer com isso, que as gravadoras estão obsoletas e não servem mais para nada, não é isso. Ainda são, na maioria das vezes, o melhor caminho para a ascensão. Mas já não são o único.

Nesse cenário, o ouvinte sempre teve um papel passivo, de esperar o que era peneirado pelas gravadoras e consumir o que já era determinado nos altos escalões da indústria. Praticamente tudo passava pelas salas dos executivos, o melhor e o pior, estavam todos lá disputando o seu espaço no mercado. Essa postura acabou criando certa acomodação por parte do consumidor, que de mero ouvinte passou a ter a quase obrigação de correr, garimpar, e descobrir onde está a boa música, seja a vertente que for. O ouvinte que ficar esperando grandes artistas aparecerem no meio das paradas de sucesso ou grandes veículos de massa ficarão cada vez mais frustrados e fatalmente sairão com o lugar comum: “não se faz mais música de qualidade, não como era antigamente” ou “ah, como era bom o rock feito nos anos 70”. No Brasil então “os anos 80 foram a década dourada do rock”. Sem menosprezar o velho saudosismo, mas isso tudo é papo furado. A boa música só não chega mais da mesma forma, os caminhos agora são outros, mais tortuosos, mas existem. O hype do momento é ser retrô, o velho com cara de novo está com tudo! Seria uma resistência do público ouvinte a encontrar a sua identificação com a contemporaneidade musical?

O cenário musical está em constante transformação, em todos os cantos do mundo, cada vez mais aparecem bandas e artistas dispostos a inovarem e fazerem música de qualidade, o que é muito difícil. Desde a década 50, em que os primeiros ídolos musicais de massa surgiram, o mundo da música já viu de tudo um pouco. Muito já foi explorado, às vezes a sensação que temos é que tudo já foi feito, e só nos resta buscar alento no passado, no já consagrado.

Daqui a 15 anos provavelmente eu e você estaremos vivos, mas talvez os nossos ídolos “daquela época da boa música” estarão mortos, ou inativos, e os estádios de futebol e grandes arenas ficarão restritos a sediarem shows de produtos de baixa qualidade da indústria fonográfica. Se a nova geração de bandas e artistas de qualidade, os que melhor dialogam com seu tempo, conseguir pavimentar seus caminhos para chegar aos ouvidos de mais e mais pessoas, e estas estiverem dispostas a se desprender das suas amarras, o mundo da música ainda terá muito a oferecer. O rock morreu. A boa música ainda não.


Lançamentos Nacionais!

Lenine – Chão

Gravadora: Universal Music

Nota: 9,5

Há tempos que Lenine é tido como um dos grandes nomes da nossa música. Desde 97, com o lançamento de O dia em que faremos contato, que o compositor vem construindo uma sólida carreira e de muito prestígio entre público e crítica.

Com o lançamento de Chão, seu décimo disco, essa história não vai ser alterada, e ainda por cima Lenine nos dá mais uma prova de que esse reconhecimento é mais que merecido. Chão chega carregado de conceitos e uma mudança bem significativa na formação da sua banda. Agora estão com ele seu filho Bruno e o único remanescente da sua antiga banda, JR Tostói, responsável também pela produção do disco junto com Lenine. Este conceito está expresso de maneira simbólica por todas as faixas que compõe seus pouquíssimos, mas certeiros, 28 minutos. A faixa de abertura, que dá nome ao disco, inicia com sons de passos dando o ritmo forte da canção, entrecortado por batidas eletrônicas e o violão sempre característico de Lenine. A letra nem se fala, um primor de poesia! De cara, umas das melhores de sua carreira.

O conceito de chão é bem abrangente, nas palavras de Lenine: “é tudo que nos sustenta”. As faixas são todas bem curtas, sem muita repetição de refrões e com muitos sons, os chamados ruídos, que permeiam todas as faixas. Essa é uma característica fundamental do disco: ele é muito moderno em toda sua estética, mas sua espinha dorsal é extremamente orgânica. Os canários ao fundo de “Amor é pra quem ama”, só não dão à canção um tom piegas porque completam uma unidade muito inteligente com o resto do disco. O batimento cardíaco de Bruno, filho de Lenine, também se faz presente na ótima “Se não for amor, eu cegue”.

Outra que deve entrar fácil na lista de melhores canções do disco, é “Envergo mas não quebro”. Que violão, que pegada, que bom gosto! Ah, e os ruídos no fundo são de uma moto-serra, que no fim parece derrubar uma árvore (ops!).

Os ritmos das canções estão muito mais experimentais. Quem conhece Lenine sabe que um de seus pontos fortes é justamente pelo deu domínio de variados ritmos, que neste disco aparecem muito mais diluídos, dando espaço para algumas pérolas inovadoras como “Tudo que me falta, nada que me sobra”, com um duelo de violões frenéticos, gravados em camadas, que dão um peso absurdo a música. Outro momento de altíssimo nível.

Seria muito mais fácil para Lenine se acomodar e fazer mais um disco com duas ou três músicas para tocar na trilha de alguma novela global, com a sua velha pegada rítmica e cara de “bom produto regional”. Mas Lenine sempre foi mais que isso. Seus discos sempre representaram passos interessantíssimos dentro de um cenário musical muito acomodado a velhas formulas. Com Chão, a discografia de Lenine ganhou um de seus melhores exemplares. Flertou de maneira sublime com ferramentas de estúdio e compôs uma mini-suíte moderna, digna de um artista que goza de sua plena maturidade e consciência musical.

Karina Buhr – Longe de onde

Gravadora: Coqueiro Verde

Nota: 9

Estamos acostumados a todo ano ouvir a mesma história: surgiu a nova salvação da MPB! Viva a redenção da nossa “boa” música! Primeiro, o que é MPB? Antigamente, era como a sigla sugere: Música Popular Brasileira. E o que significa hoje essa denominação? Muita coisa mudou desde então. Mas a necessidade de classificar e rotular tudo coloca no mesmo balaio da tal MPB qualquer coisa que tenha um traço mínimo do que seja música brasileira, dita de raiz. Segundo, quem disse que esta precisa ser salva e quem seria o pretensioso?

Mas por fora de todo esse papo furado, vez e outra, surgem artistas que inspiram-se na nossa riquíssima música para criar uma nova identidade. Não querem salvar nada, mas dão uma contribuição muito maior que os tais salvadores. Esse é o caso de Karina Buhr (ex-Comadre Fulózinha, entre outros), que lança seu segundo disco em carreira solo apenas um ano depois do lançamento de seu ótimo álbum de estreia, Eu menti pra você. Seria uma tentativa de aproveitar esse momento de exposição que veículos como a MTV vêm dando a artistas do cenário independente?

Longe De Onde, segue um caminho muito parecido com o de seu antecessor, apostando em um formato estético bem ousado. O álbum usa uma formação de banda muito interessante, com dois guitarristas extremamente talentosos, Edgar Escandurra e Catatau, e contando com Mau no baixo, bruno Buarque na bateria e sintetizadores, e Guizado nos trompetes.

Porém as letras e os arranjos desse novo disco estão mais densos, transitando por caminhos um pouco mais ousados. A coisa toda inicia com “Carapalavra”, com uma levada quase punk e suas guitarras distorcidas, dão o clima visceral que estará presente em outras faixas. O clipe também é maravilhoso! “Guitarristas de Copacabana” vai por esse caminho, mostrando a verve ácida de sua crítica social. Esse clima culmina em “Copo de Veneno”. Maravilhosa canção, com letra impecável e arranjo maravilhoso. Os metais contrastando com a sujeira das guitarras perfeitas de Scandurra e Catatau caíram muito bem, mostrando bom gosto e certeza dos caminhos que Karina quer trilhar.

Acho muito gratificante, e irônico, quando se ouve uma música como “Cadáver”, que faz você ter vontade de dançar ouvindo frases como: “Sua dúvida é produto da sua escravidão, mantenha então sua sanidade em defesa do seu estômago”, ou, “Porque o tempo vai passando e suas qualidades vão sumindo, e seus defeitos aparecendo cada vez mais, cada vez mais, cadáver!”. O ritmo alegre da canção possibilita a Karina jogar na cara do ouvinte coisas como estas sem que tudo pareça uma tragédia auto-indulgente. Melhor faixa do álbum, disparada!

Esse é apenas o segundo disco nessa nova fase da sua carreira. Com certeza vai servir pra consolidar seu nome no cenário nacional, ainda não como uma das “salvadoras da MPB”, por sorte, porque elas são muito chatas e Karina… não. Longe de Onde, é mais experimental e menos alegre. Mostra Karina mais madura em sua poesia e disposta a encarar desafios. Não é um disco que possua vários hits pra tocar em rádios nem vai ser a nova sensação. Mas pavimenta com solidez os seus futuros trajetos musicais. Não via nada tão consistente e promissor no universo das cantoras/compositoras desde Adriana Calcanhotto. Já era passada a hora de Karina chegar.

Chico Buarque – “Chico”

Gravadora: Biscoito Fino

Nota: 8,5

Confesso que não tinha muitas esperanças de que Chico lançasse algum disco tão cedo. Depois de pouco tempo desde o lançamento de “Leite derramado”, sua última aventura literária, Chico surpreende os fãs com o anúncio de que estava gravando um disco e este teria todo um esquema inovador de pré-venda pela internet. Quem comprasse o disco antes de ele chegar às lojas poderia ter acesso a vídeos exclusivos no site do compositor, em que mostrava o making off da gravação e entrevistas exclusivas com os músicos e com o próprio Chico, fora que poderia conhecer algumas músicas antes de todo mundo.  Foi um esquema bem bolado, e que deu certo, a pré-venda do disco foi muito bem sucedida em cifras. E ainda de quebra mostrou um Chico disposto a dialogar com novos formatos de veiculação de mídias.

Já faz bastante tempo que os lançamentos musicais na carreira do compositor têm ficado cada vez mais espaçados. Os cinco anos que separam “Chico” de seu antecessor “Carioca” até que foram bem curtos se analisarmos a retrospectiva das últimas décadas. Mas o que parece um detalhe, a demora em seus lançamentos, nada mais é do que a representação mais direta do que significa a música para Chico nesses últimos 15 ou 20 anos: uma atividade que se faz quando se tem vontade de fazer, já não é mais um trabalho, é um hobby.

O disco conta com pequenas pérolas, todas as canções são de alto nível, mas composições como Querido diário, que abre o disco, soa como uma confissão de uma pessoa velha sobre uma vida solitária. Nada glamorosa. Essa escolhida pela revista veja como a música com o verso mais feio da MPB: “amar uma mulher sem orifício”. Chico continua incomodando. Essa pequena é um blues, nada comum na obra de Chico, com uma letra magnífica. O dueto com a sua nova namorada, Thais Gulin, em Se eu soubesse, parece ter dado todo um clima muito verídico, muito vivo a canção, a sensação que se tem é de um casal fazendo as mais íntimas e belas confissões em público. Maravilhoso. Nina é uma valsa que conta a história de um casal que namora pela internet, ele no Brasil e ela na Rússia. É tão difícil usar referências atuais na poesia, como encaixar um tweet em uma história de amor, ou um encontro no “face’, mas Chico usou esses recursos e construiu uma de suas mais belas poesias nessa canção: “Nina diz que se eu quiser eu posso ver na tela, a cidade, o bairro, a chaminé da casa dela.” E conclui de forma soberba: “Nina anseia por me conhecer em breve, me levar pra noite de Moscou. Sempre que essa valsa toca, fecho os olhos, bebo alguma vodca… E vou.”

É nítido que a poesia de Chico está mais simples, mas como síntese, não como pobreza. Isso às vezes cria uma imagem de desleixo, que é uma grande mentira. As pessoas, incluo obviamente o artista nessa lista, ao envelhecerem, ficam mais simples, é normal. Excluam dessa lista os senis. O fato é que Chico continua mestre na arte de dialogar com sentimentos da maneira mais completa. Mais rica, e mais bela. É muito mais recompensador ouvir Chico de muito em muito tempo, mas ainda tendo algo de relevante para mostrar, ao vê-lo satisfazendo seus fãs e lançando discos medianos todos os anos. Posso esperar mais cinco ou seis anos até o próximo, acho que vai valer a pena.