Arquivo do mês: dezembro 2011

Crítica: The Black Keys – El Camino

The Black Keys – El Camino

Gravadora: WMG

Nota: 9,0

Apesar deste ser o sétimo disco da carreira dessa dupla estadunidense, somente ano passado eles acabaram aparecendo por aqui, com o lançamento do maravilhoso disco Brothers. Não deixaram passar muito tempo e aproveitaram o hype para logo lançar seu segundo álbum pós-fama mundial, “El Camino”. Um trabalho mais direto, mais rock se comparado ao álbum anterior, e mais parecido com seus trabalhos antigos.

O disco abre com uma de suas melhores músicas: “Lonely Boy”, com guitarras pesadas e ao mesmo tempo cristalinas, num ritmo swingado que explode em um refrão magnífico. De cara percebe-se o ótimo trabalho, não só nas composições, mas na produção do álbum, que ficou irretocável. O uso de várias texturas de guitarras e incursões de pequenos detalhes feitos por outros instrumentos (ora orgânicos, ora sintetizados), deu um molho muito especial ao disco, contribuindo para uma estética muito particular. Uma agradável sensação retrô que não soa fajuta, mas inteligentemente modernizada, como no caso de “Dead and gone”, com direito a coral com os dois pés fincado na música negra (meio psicodélica, diga-se de passagem), e um refrão caindo em um embalo surf music muito bem sacado (e um pouco mais envenenado… Diga-se de passagem).

Fica difícil apontar destaques em um disco tão redondo. É incrível como qualquer música poderia se tornar um single, tamanha uniformidade do álbum. Canções como “Gold on the ceiling” (pesada, grudenta e perfeita) ou “Sister”, uma faceta até então não explorada, e um destaque inesperado (imagine uma versão mais rock, bem mais rock, que o Michael Jackson dos anos 80), são hits certos, não tanto como uma “Tighteen up”, mas são. Ao mesmo tempo em que “Money Maker” e “Stop Stop” podem não tocar nas rádios, mas são daqueles rocks para levar os fãs ao delírio nos shows. Inclusive esse é um dos grandes talentos dessa dupla, a capacidade de criar músicas poderosas e que ao vivo conseguem ganhar ainda mais em intensidade. Mas confesso que “Litle Black Submarine” me surpreendeu com aquele final apoteótico, totalmente sugado das influências setentistas do grupo. Uma verdadeira pérola!

Mesmo assim, “El Camino” não consegue soar tão pop e inovador quanto “Brothers”, que possuía um conceito de imagens muito fortes, com clipes que se sobrepunham às músicas por alguns momentos. Em “El Camino”, o Black Keys está ainda colhendo os louros da grande exposição que teve da mídia musical e aproveitando para lançar um trabalho que resgata muito bem o que tem sido a sua carreira, mas não para nisso, continua apontando novos caminhos.

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Crítica: O Teatro Mágico – A Sociedade do Espetáculo

O Teatro Mágico – A sociedade do espetáculo

Independente

Nota: 6,5

Terceiro disco de um dos fenômenos musicais mais interessantes a surgirem recentemente na cena brasileira. O Teatro Mágico, como quase todos devem saber, é o grupo liderado por Fernando Anitelli que mistura música (principalmente), dança, poesia e circo. Nascido em 2003 nos palcos alternativos de São Paulo e criando uma base solida de admiradores, o Teatro Mágico conseguiu se espalhar por todo Brasil, e hoje é um dos maiores grupos do cenário musical alternativo. “A sociedade do espetáculo” vai ser a prova maior da consistência do trabalho desse grupo.

É inegável e transparente o desejo de conquistar um espaço e público maior com esse lançamento. A gravação do disco ocorreu com a contratação de um produtor, algo inédito na carreira do grupo,  e que foi determinante para que a banda chegasse a uma síntese sonora maior. O problema é que o fruto dessa síntese é extremamente débil. O produtor do disco não foi capaz de salvar a banda de uma tentativa frustrada de atirar para todo os lados e ver no que dá. É exatamente essa a impressão que se tem depois de ouvir o disco:  uma banda tentando, sem conseguir, unir toda sua parafernália ideológica em um formato sonoro e estético pop-contemporâneo.

Na apresentação que o grupo faz deste trabalho em seu site, cita algo que de cara fica evidente ao se ouvir o disco: a influência fortíssima da sonoridade e o espírito criativo do Clube da Esquina. Se fosse somente isso, tudo estaria bem.

Próscenio abre caminho para a melhor música do disco, Além, porém aqui. Melodia interessantíssima com muitas explorações de ritmos feitas de maneira excepcional,  como o que de melhor o “Clube” já havia feito. Depois desse ponto já começam os problemas.  Amanhã… Será?, apesar de ter um apelo pop legal, na medida, e uma letra que remete aos conflitos árabes, acaba por cair em reducionismos baratos como “o post é voz que voz libertará”, e ainda em frases ambíguas  que vão aparecer ao longo do disco, em várias músicas. para citar um caso, nessa mesma faixa: “Amanhã… Será” / “Amanhecerá” . Humberto Gessinger já fez isso à exaustão, e depois de um tempo irrita.

Essa alternância entre momentos inspirados, outros nem tanto, e ainda outros de nenhuma inspiração, acaba por revelar certa imaturidade musical na tentativa de serem mais versáteis. Por exemplo: Transição é uma composição muito bacana, mas sozinha não consegue competir com a trinca de musicas ruins que vem depois. Eu não sei na verdade quem eu sou, é praticamente uma aula de auto-ajuda, mas com toques maiores de lirismo; Nosso pequeno castelo possui uma levada mais swingada que até poderia vir a calhar, mas descamba para uma pseudo-lambada de péssimo gosto e evolui para a próxima faixa, O novo testamento, com seu pragmatismo panfletário. O trecho final da letra diz: “Não poder se opor a dor é relevar a si, não poder se opor a dor é revelar a si, só”. Um primor de inocuidade e pretensão.

Para o final do disco estão reservados alguns ótimos momentos, que encerram o trabalho mostrando alguma esperança.  A começar por Folia no quarto, com uma melodia muito bem construída e uma letra impecável.  O único exemplo de uma balada bonita deste disco, sem cair nos arranjos canastrões que marcam firme presença em outras faixas, como em Você me bagunça, essa figurando como uma bela amostra de como o Teatro Mágico pode soar piegas  quando quer.

Depois de já estar quase entregando os pontos, fecham o CD com duas ótimas canções: Esse mundo não vale o mundo e Canção da terra (uma clara e interessante defesa de opinião e demonstração de apoio aos movimentos de luta pela terra).

É preciso ressaltar a importância que o Teatro Mágico tem no cenário atual, sendo uma banda que optou corretamente por brigar pelo espaço no mainstrean e mostrar um universo musical diferente do dominante para toda uma geração de jovens em idade de entender de música. Se nivelarmos por baixo, veremos que o Teatro Mágico está muito acima da média se comparado as bandas que hoje ditam os parâmetros do que é música popular no Brasil. O grupo de Anitelli Faz discussões sobre temas interessantes e tem um bom discurso. Mas se nivelarmos por cima, podemos enxergar que o Teatro Mágico não apresentou nada de artisticamente relevante e consistente que já não tivesse sido explorado anteriormente, em nenhum de seus aspectos (o circo, teatro, poesia e a música). Ninguém vai conseguir reinventar a roda, sem que essa tentativa soe fraudulenta aos menos incautos.