Crítica: O Teatro Mágico – A Sociedade do Espetáculo

O Teatro Mágico – A sociedade do espetáculo

Independente

Nota: 6,5

Terceiro disco de um dos fenômenos musicais mais interessantes a surgirem recentemente na cena brasileira. O Teatro Mágico, como quase todos devem saber, é o grupo liderado por Fernando Anitelli que mistura música (principalmente), dança, poesia e circo. Nascido em 2003 nos palcos alternativos de São Paulo e criando uma base solida de admiradores, o Teatro Mágico conseguiu se espalhar por todo Brasil, e hoje é um dos maiores grupos do cenário musical alternativo. “A sociedade do espetáculo” vai ser a prova maior da consistência do trabalho desse grupo.

É inegável e transparente o desejo de conquistar um espaço e público maior com esse lançamento. A gravação do disco ocorreu com a contratação de um produtor, algo inédito na carreira do grupo,  e que foi determinante para que a banda chegasse a uma síntese sonora maior. O problema é que o fruto dessa síntese é extremamente débil. O produtor do disco não foi capaz de salvar a banda de uma tentativa frustrada de atirar para todo os lados e ver no que dá. É exatamente essa a impressão que se tem depois de ouvir o disco:  uma banda tentando, sem conseguir, unir toda sua parafernália ideológica em um formato sonoro e estético pop-contemporâneo.

Na apresentação que o grupo faz deste trabalho em seu site, cita algo que de cara fica evidente ao se ouvir o disco: a influência fortíssima da sonoridade e o espírito criativo do Clube da Esquina. Se fosse somente isso, tudo estaria bem.

Próscenio abre caminho para a melhor música do disco, Além, porém aqui. Melodia interessantíssima com muitas explorações de ritmos feitas de maneira excepcional,  como o que de melhor o “Clube” já havia feito. Depois desse ponto já começam os problemas.  Amanhã… Será?, apesar de ter um apelo pop legal, na medida, e uma letra que remete aos conflitos árabes, acaba por cair em reducionismos baratos como “o post é voz que voz libertará”, e ainda em frases ambíguas  que vão aparecer ao longo do disco, em várias músicas. para citar um caso, nessa mesma faixa: “Amanhã… Será” / “Amanhecerá” . Humberto Gessinger já fez isso à exaustão, e depois de um tempo irrita.

Essa alternância entre momentos inspirados, outros nem tanto, e ainda outros de nenhuma inspiração, acaba por revelar certa imaturidade musical na tentativa de serem mais versáteis. Por exemplo: Transição é uma composição muito bacana, mas sozinha não consegue competir com a trinca de musicas ruins que vem depois. Eu não sei na verdade quem eu sou, é praticamente uma aula de auto-ajuda, mas com toques maiores de lirismo; Nosso pequeno castelo possui uma levada mais swingada que até poderia vir a calhar, mas descamba para uma pseudo-lambada de péssimo gosto e evolui para a próxima faixa, O novo testamento, com seu pragmatismo panfletário. O trecho final da letra diz: “Não poder se opor a dor é relevar a si, não poder se opor a dor é revelar a si, só”. Um primor de inocuidade e pretensão.

Para o final do disco estão reservados alguns ótimos momentos, que encerram o trabalho mostrando alguma esperança.  A começar por Folia no quarto, com uma melodia muito bem construída e uma letra impecável.  O único exemplo de uma balada bonita deste disco, sem cair nos arranjos canastrões que marcam firme presença em outras faixas, como em Você me bagunça, essa figurando como uma bela amostra de como o Teatro Mágico pode soar piegas  quando quer.

Depois de já estar quase entregando os pontos, fecham o CD com duas ótimas canções: Esse mundo não vale o mundo e Canção da terra (uma clara e interessante defesa de opinião e demonstração de apoio aos movimentos de luta pela terra).

É preciso ressaltar a importância que o Teatro Mágico tem no cenário atual, sendo uma banda que optou corretamente por brigar pelo espaço no mainstrean e mostrar um universo musical diferente do dominante para toda uma geração de jovens em idade de entender de música. Se nivelarmos por baixo, veremos que o Teatro Mágico está muito acima da média se comparado as bandas que hoje ditam os parâmetros do que é música popular no Brasil. O grupo de Anitelli Faz discussões sobre temas interessantes e tem um bom discurso. Mas se nivelarmos por cima, podemos enxergar que o Teatro Mágico não apresentou nada de artisticamente relevante e consistente que já não tivesse sido explorado anteriormente, em nenhum de seus aspectos (o circo, teatro, poesia e a música). Ninguém vai conseguir reinventar a roda, sem que essa tentativa soe fraudulenta aos menos incautos.

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Sobre Angelo Borba

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4 respostas para “Crítica: O Teatro Mágico – A Sociedade do Espetáculo

  • Priscila Flor de Laranjeira Feller

    nossa,

    ainda não ouvi esse disco mas algumas músicas, provavelmente as melhorzinhas, ja tao rolando por algumas rádios e não mostram grande diferença dos discos anteriores.

    enfim, achei muito boa a critica visto que realmente há varios parametros pra nivelar esse tipo de tentativa musical na contemporaneidade.

    eu sinceramente cansei um pouco do romantismo meio pedante e letras auto-ajuda. porém, quem sabe na performance do show eles não se saiam melhor, né! afinal, essa é o grande diferencial buscado pelo grupo.

    agora se eles optarem por manter o mesmo padrao musical e performatico, acho que ta no momento de se rever suas futuras trajetorias ou quem sabe uma aposentadoria?

  • Angelo Borba

    Pois é Priscila, acho que é bem por aí. Até existem boatos sobre essa ser a última turnê do grupo, depois de encerrarem a divulgação deste que é o fim da trilogia. Acho que é uma decisão acertada, visto que já exploraram bem tudo o que podiam dese formato.

  • Crazy Person

    a melhor critica que encontrei .Avaliou uma musica no seu contexto como alias as outras criticas deveriam ter feito. E de quebra comparou trouxe a qualidade que o grupo tem , com a que ela se propoe a ter. (na minha opiniao tem potencial ,porem o que vai ser só o tempo dirá) Muito bom!! ^^

    • Angelo Borba

      Muito obrigado pelo elogio! Confesso que se fosse hj, daria uma note um pouco menor para o disco, tipo um 5. Enfim, não gosto muito do grupo, mas acho fundamental, para qualquer crítico que se preze, uma análise mais ampla, não tão pessoal. Claro que sempre será pessoal, e não tem problema nenhum nisso. Mas ao mesmo tempo é muito importante assumir outros olhares quando vai se julgar uma obra artistica. Um julgamento muito estreito não difere em nada do que o ouvinte comum vai ter. Sendo assim, o crítico que o faz, não passa de uma pessoa com mais conhecimento, mas com a mesma postura de um mero ouvinte com opinião forte.
      Dentro em breve, volto a publicar textos no blog, além do programa de rádio. Está convidado(a) a voltar.
      Obrigado!

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