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Ensaio contra o conservador

Seja no que ele for empregado, o conservadorismo é um entrave e disso não restam dúvidas. Claro que em momentos de crise, onde a sociedade como um todo flutua sem perspectivas de um futuro minimamente agradável a curto ou médio prazo, alguns discursos voltam a nos assombrar, velhas fórmulas são reutilizadas e passam por novas. O conservador retorna. Sempre recorrendo a maniqueísmos culturais que representariam uma caricatura ultrapassada do que é bom ou não. Como manter certezas obsoletas? Esse pode ser um dos mantras do conservador.

Penso que estamos num desses momentos, guardada as devidas proporções, em que o discurso retrógrado parece retomar um pouco da sua força. Cativa quem está acuado e com medo do futuro (que é incerto, sempre foi) ao mesmo tempo em que convence uma grande parcela da juventude que começa abrir as suas “portas da percepção”, quase sempre sem muitos referenciais. E quando falo da falta de referencias, estou sendo abrangente, vou da política à literatura, da filosofia à música. Praticamente todos os principais ícones dessas áreas que citei estão velhos e daqui há 15 ou no máximo 20 anos provavelmente nem estarão mais vivos.

Podemos enxergar uma mudança drástica na relação, por exemplo, que a juventude tem com política. Os partidos não são mais uma alternativa viável de transformação, no entendimento geral. Não que a contestação ou a rebeldia, tão próprias do espírito jovem, se perderam. Quero crer que está somente adormecido, melhor, anestesiado. O pouco que resta desse espírito impetuoso e crítico da juventude, hoje foca em outros caminhos, por outras vias que não as organizações políticas tradicionais. Isso é uma característica muito forte do presente, e que, a julgar pelo andar da carruagem, tende a se intensificar.

Não vou abrir tanto o debate, quero me focar em um assunto específico: o conservadorismo e a arte. Onde entra essa questão e por que deve ser discutida? Hoje quem tem entre 20 e 30 anos, cresceu construindo seus parâmetros críticos e analíticos com base em um acúmulo de conhecimento comum a quem também é de sua geração. Certos signos de uma época, referenciais máximos de qualidade (ou falta dela) vão aos poucos se perdendo com o passar do tempo. A geração que cresce agora baseia suas análises e críticas em parâmetros voláteis. Como exigir de um adolescente que perceba o decréscimo cultural que vivemos, se ele não viveu num período em que a arte tinha outro valor? Ou saber que existiu um dia um ritual comum entre os admiradores de música em torno do disco, que tornava a audição de um álbum quase que numa experiência transcendental? Como exigir que saiba, se entrarmos no campo da política, quais são as divergências históricas entre a esquerda e a direita? Se ele cresceu vendo o PT aliado ao PMDB no Brasil inteiro. Como esperar que a juventude leia mais livros, se eles estão cada vez mais caros, ao passo que a internet oferece conteúdo rápido, barato, visualmente atraente e mastigado?

Imagina só: quem construiu todos os seus parâmetros de qualidade sobre certos referenciais começa a perceber que vários deles estão caindo e terão que, daqui a poucos anos, dar lugar a novas formas de se produzir e consumir arte. Também muda a maneira d e escolher como e em quem votar (essa parece ser a questão mais fácil de responder, “político não presta”). Enfim, tudo que mais importa nesse mundo está mudando, e muito. Isso apavora ao mesmo tempo em que infla o conservador, porque ele vê que suas fórmulas e esquemas não se encaixam mais tão bem e, em função disso, se mantém cada vez mais fiel aos seus dogmas preciosos.

É fundamental ressaltar que o conservador está em todo lugar, ouvindo, assistindo e lendo todo tipo de conteúdo, vai do metal ao jazz, da filosofia ao HQ. Sempre apegado a ninharias teóricas.

Não pense que sou mais um dos milhões de nostálgicos que vivem por aí reclamando, enchendo, resmungando, que não se faz mais nada tão bom como antigamente (se bem que esse raciocínio se aplica perfeitamente a eletrodomésticos), e que boa mesmo era a “minha época”, lá tudo era melhor, inclusive o que já era muito ruim. Se nivelarmos essa análise por cima, como tem que ser feito, veremos que a produção artística, de fato, decaiu em termos de qualidade, em todos os setores. Mas o que temos é o nivelamento por baixo. Não me venha dizer que décadas atrás, quando não existia o funk carioca, sertanejo universitário e boy bands, o mundo, e o Brasil, estavam livres da avalanche de mau gosto pop, e que por isso não estávamos tão mal. Desde o início da indústria do entretenimento se fabrica lixo, sempre foi o que mais vendeu e possivelmente ainda será, por muito tempo.

A grande diferença é que para contrabalancear essa realidade tínhamos artistas de primeira grandeza, em todos os cantos e nichos, disputando a consciência das pessoas, sem medo de dar a cara à tapa para o grande público, o que parece faltar hoje. Os guetos artísticos estão cada vez mais presentes. A impressão que dá, é que vivemos em um cenário onde quase tudo já foi explorado e resta ao sujeito/artista, apenas a tarefa de remodelar ou misturar o que ainda não foi mexido. Poucos conseguem apontar novos rumos.

Caminhamos a passos largos, e irreversíveis, rumo a homogeneização. Os traços de cultura local apagam-se com o passar dos anos, e isso é potencializado pela rede mundial de informações e influências a que estamos submetidos. A música mais “bombada” pode até ser de um coreano; os livros mais vendidos podem ser de escritores de origem árabe, tudo pode. Desde que obedecendo aos padrões de formatação estadunidenses, como de praxe. Não se trata aqui de um ranço contra nossos irmãos da terra do Tio Sam, mas a máquina funciona assim, há décadas. O esperanto pode não ter pego em lugar algum, mas artisticamente, tudo aponta para uma linguagem comum. Tudo cada vez mais parecido.

Ainda acredito no nosso futuro, enquanto seres humanos capazes de sobreviver em um mundo cada vez mais inóspito, e se a arte estiver cambaleante nesse cenário, há grandes chances de que todo o resto vá por água abaixo. O papel nocivo do conservador é justamente o de não acreditar e não enxergar as perspectivas que o presente aponta, sempre se abraçando ao passado reconfortante (e morto, ás vezes).

Temos uma demanda gigantesca por pensadores, vanguardistas, radicais do presente. Que entendam, mais, que aceitem viver plenamente o seu tempo, para o seu tempo e, finalmente, para o futuro. Não se trata de abandonar o passado, longe disso. Trata-se apenas de entender que hoje quem tem 20, 30, 40 anos, ainda vai acompanhar muitas transformações pela frente. Vai, na melhor das hipóteses, ser um agente da construção desse cenário hipotético e nebuloso que é o futuro.

Não sou um sujeito otimista, e se o tempo que nos espera ao fim da curva for mais sombrio do que imagino, não vou me surpreender. A questão é que tem gente boa, outros ainda muito melhores que eu e que você, batalhando por aí. Não posso fechar os olhos para isso. E se enxergo, como ignorar?

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Fora do Eixo, mas lutando para entrar.

O universo musical está sofrendo uma grande mudança no mundo todo, e a cena musical brasileira, sendo tão rica e variada, também não poderia estar de fora desse processo. A necessidade de artistas dominarem novas ferramentas de divulgação de sua arte acaba, inevitavelmente, forçando-os a explorarem outras formas de fazer essa divulgação. A internet é o caminho quase que obrigatório para o músico mostrar seu trabalho. Mas não termina aí, o caminho do artista nessa nova realidade é muito cheio de variações também quando o assunto é o aspecto comercial da sua carreira. Vivemos um período onde não basta o sujeito ser um “mero” compositor, ele acaba tendo que ser um empresário do ramo. E nessas mudanças nos processos que vem depois da composição é que mora uma das maiores polêmicas musicais dos últimos anos: a atuação do coletivo “Fora do Eixo”.

Para quem ainda não sabe, trata-se de um grupo muito articulado política e estruturalmente, que vem instrumentalizando grande parcela de uma cena de artistas independentes brasileiros. O embrião desse coletivo se deu em 2000, com a experiência do espaço Cubo, fundado por Pablo Santiago Capilé (criador do festival “Calango” e “Grito rock”). Com o crescimento desse espaço e de seu espectro de ação, foi formado em 2005 o “Fora do Eixo”, um coletivo de gestores de produção cultural independente, com o intuito de criar e dar suporte a uma cena de música independente que sempre fervilhou no Brasil. Nessa época o FdE atuava em cidades como Cuiabá, Rio Branco, Uberlândia e Londrina. A partir de 2011, agora maior e mais influente, a direção do coletivo se muda para São Paulo e cria o espaço CAFESP (Casa Fora do Eixo – SP), baseado na economia solidária e com um funcionamento bem peculiar, incluindo uma moeda própria, o grupo mantém uma estrutura de 18 pessoas pagas para “militarem pela causa”.

Essa moeda, chamada de “cubo card”, é que paga os artistas que fazem parte do cast do coletivo. Explico: uma banda se dedica pela causa independente e faz diversos shows pelo coletivo FdE, ela não recebe cachê, mas sim “cubo card”, que ela pode usar para pagar horas em estúdio, confecção de material de divulgação e várias outros serviços ligados a manutenção de uma banda. Tudo isso graças a essa rede de empresas, profissionais da música e casas de shows que de alguma forma estão ligadas ao coletivo. É uma forma extremamente inovadora no que se refere a pensar a música de uma maneira profissional e pragmática.

 

O grande ataque!

 

Recentemente, esse assunto começou a ser pautado nas redes sócias e jornais impressos com uma força até então não vista, fruto direto de alguns embates acalorados por parte de quem critica e de quem defendo o FdE. Esse texto não pretende ser meramente explicativo, mas uma opinião sobre o que representa o coletivo e que papel cumpre no atual momento. Portanto, compro a briga.

Um dado interessante para o começo da análise: o principal mentor e figura de maior expressão do coletivo, Pablo Capilé, começou sua militância quando ainda era estudante de marketing e publicidade na Universidade Federal de Cuiabá. Este dado não é nada irrelevante para se entender o modus operandi do coletivo e suas raízes sociais. Vale lembrar que o FdE também esteve presente na organização da Marcha da Liberdade que ocorreu em SP, após a proibição da Marcha da Maconha, inclusive defendendo a posição de que se deveria procurar apoio financeiro na iniciativa privada, com marcas que estivessem dispostas a ajudar, como a Coca-Cola.[i]

Se entendermos que o mainstream musical vive uma crise econômica e criativa e, paralelo a isso, temos uma cena independente que não sabe e nem consegue andar sozinha, por estar presa a antigas amarras na maneira de pensar o “negócio música”, chegamos a conclusão que este setor de trabalhadores da música tinha que aprender a usar as ferramentas disponíveis. Nesse caso, os editais públicos para fomentação cultural do então ministro Gilberto Gil deram um grande suporte econômico ao grupo, se tornando uma fonte de renda importantíssima, aliada a busca de recursos na iniciativa privada. A retirada de grande parte desses incentivos é o que alimenta a disputa política que conduzem contra a ministra Ana Buarque de Hollanda. O objetivo era, e ainda é, conquistar um espaço muito maior do que se vislumbrava até então, inclusive político.[ii]

 

O coletivo FdE não apresenta nenhuma ruptura substancial no panorama da exploração do músico e sua obra, apenas muda as relações dessa exploração, que outrora era feita de forma vertical agora adquire uma horizontalização. Os idealizadores desse formato FdE, querem ocupar um lugar nesse imenso mercado musical independente, que existe a sua revelia, e que movimenta muita gente. Pablo Capilé é um homem do marketing, um sujeito extremamente inteligente e articulador, que viu na cena independente da música brasileira um grande filão de negócio. Mas não possui cara de empresário, não se veste como um, é muito moderno se comparado aos empresários da música, mas em última análise, personifica de maneira espetacular uma nova geração de pensadores da “geração pós-rancor”, que defende que a luta de classes e as velhas formas de se fazer política morreram, e é preciso inovar, sempre por dentro do sistema, a maneira de se articular política e socialmente. O coletivo FdE é um movimento político/cultural. É preciso ter isso em mente ao se fazer qualquer análise do seu papel.

De fato, é um dos acontecimentos mais interessantes dos últimos anos. A última grande coisa a acontecer no nosso cenário musical, foi o movimento Mangue Beat, há quase 20 anos. A diferença agora é importantíssima, pois na verdade, ela ocorre na superfície, se dá primeiro no âmbito dos produtores, difusores e empresários, para depois alcançar os músicos. É como se entregassem um projeto, uma linha política para uma classe de “trabalhadores da música” (os músicos), propondo reformas em um sistema que não comporta tanta diversidade, que não dá espaço para o grande volume de arte que se produz em um país tão vasto. É preciso oxigenar esse universo, reformulá-lo, mas nessa lógica a exploração do músico apenas adquire novos formatos, com ares menos burocráticos.

É sabido que diante da enorme barreira que existe para que os artistas cheguem ao mainstream, muitos acabam optando por criar a sua cena, de uma maneira local. E é sabido também que muitos artistas já estão prontos para adentrar o sistema, só falta o empreendedor que os conduza. Ou melhor, faltava. Em um período de mudanças tão grandes na forma como as pessoas se relacionam, via redes sociais, por exemplo, e a forma como essa geração que vive o contato diário com a tecnologia que participa ativamente dessas transformações, é natural que surjam daí grandes expoentes, em várias áreas. Pablo Capilé é um desses, não o único, é claro. Um homem dos negócios, da política e, por que não, da música? Música não é um produto, não une as pessoas? Música não dá para vender, não gera lucro? Claro que sim, a música movimenta milhões e esses milhões vão parar nas mãos de poucos e há bastante tempo, os mesmos poucos. O que o FdE propõe é que se dividam essas riquezas, mas se dividam entre quem? Pode ser que os músicos saiam beneficiados dessa mudança que o coletivo propõe, afinal, algumas migalhas sempre sobram.


[i] “Pablo Capilé, articulador do FdE, assumiu as tarefas relacionadas à comunicação da manifestação, como transmissão online, e seu coletivo também arcou com os custos das flores que seriam distribuídas no dia. Capilé ainda mencionou a possibilidade de patrocínio da Coca-Cola à marcha; segundo seu argumento, hoje em dia as empresas buscam contato direto com os grupos e movimentos sem que seja necessário expor as suas marcas”. Trecho do artigo: A esquerda fora do eixo, por PASSAPALAVRA.

[ii] Pcult (Partido da cultura) surgiu em 2010 meses antes das eleições. Trata-se de um movimento social com vistas ao favorecimento e maior preocupação com as políticas públicas para a cultura. Até então todo o trabalho desenvolvido nesse campo havia sido na instância da sociedade civil. O PCULT passa a ser a ferramenta de conexão desse trabalho com a política eleitoral… O que dá a musculatura, legitimidade e dinâmica ao PCULT é a peculiaridade de, ao mesmo tempo em que admite e estimula a presença de integrantes de todos os partidos políticos, tem em sua maioria integrantes que não estão filiados a partido nenhum. Por Ney Hugo, Portal fora do eixo.

 

O texto acabou não abordando uma porção de enfoques, vários muito importantes mas já bastante e melhor desenvolvidos do que me propunha. O ensaio é uma visão muito pessoal deste fenômeno interessantíssimo que ocorre neste período. Abaixo relaciono os melhores textos, cada um analisando aspectos diferentes sobre o mesmo assunto. Recomendado para quem quer se interar deste debate.

 

http://passapalavra.info/?p=41221 Texto que narra a trajetória da esquerda fora do eixo, a partirdas mobilizações  em higienopolis e a vinda do coletivo para SP.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=9741 Artigo de José Arbex Júnior, com uma visão de esquerda. Muito completo, com uma analise muito interessante sobre as raízes sociais do Fora do eixo.

http://chinaman.com.br/fora-do-eixo-e-longe-de-mim/ Resposta muito honesta do músico e vj da MTV, China, sobre as discussões por causa de opiniões do artista referente ao FdE, que reverberaram no twitter e acabaram em acusações de ambos os lados.

http://www.trezentos.blog.br/?p=6056 A esquerda nos eixos e o novo ativismo, de IvanaBentes, professora universitária e diretora da ECO/UFRJ. Uma resposta ao texto doPASSAPALAVRA.

http://revistatrip.uol.com.br/revista/199/reportagens/ministerio-da-cultura.html Reportagem da revista TRIP que mostra o funcionamento da casa fora do eixo em SP.

http://guaciara.wordpress.com/2011/05/25/sobre-o-cancelamento-do-show-do-elma-no-cedo-e-sentado-studio-sp-noite-fora-do-eixo-por-bernardo-pacheco/ Relato bem extenso, mas muito revelador, do músico Bernardo Pacheco sobre o cancelamento nada honesto do show de sua banda, o Elma, na CASA SP, um dos bares parceiros do FdE. Mantido por Alexandre Youssef, candidato a deputado federal pelo PV nas últimas eleições e um dos principais defensores do FdE.

 

 

 

 

 


O rock morreu?

Claro que eu não sou o primeiro a fazer essa pergunta, aliás, ela já é até meio batida. Eu sugeriria uma troca na questão: a boa música morreu? Sim, porque se analisarmos mais profundamente, aquela velha pergunta sobre a morte do rock, e se considerarmos que o rock é sinônimo de boa música, nada mais é do que perguntar se a boa música morreu. A resposta tem variantes, e é sobre isso que quero debater.

Não é só o rock n’ roll que goza desse prestígio, outros estilos como o jazz, o blues, o soul, o samba também são associados à boa música, e também tiveram seu período áureo, tanto no aspecto da criação quanto no seu alcance popular, mas foi há muito tempo, e hoje se resumem a “guetos de boa música”, não têm mais o mesmo poder e, consequentemente, a mesma importância. Nesse sentido, respondendo a primeira pergunta: sim, o rock morreu! Morreu enquanto estilo capaz de criar bandas e artistas que movem multidões e determinam a maneira de pensar e agir de uma geração de jovens. Até poucos anos atrás, um adolescente canalizava suas angustias e embalava suas rebeldias ao som do rock, era o caminho normal da juventude. Hoje é só mais um.

Enquanto estilo e estética, simplesmente, o rock ainda sobrevive, mas ele não se faz só de estilo e estética, tem que ter também espírito, e este morreu. Alguns podem alegar, e com razão, que ainda nascem bandas genuínas de rock a cada dia, que mantém o tal espírito, mas numa rápida comparação com décadas passadas, quantas são essas bandas hoje? E o mais importante: elas tocam para quem, para que público? Me refiro a quantidade também. Que banda de rock surgida há 15 ou 20 anos consegue lotar um estádio como fazem U2, Paul McCartney, Rush e tantos outros dinossauros?

É preciso levar em consideração que a era dos artistas de massa, que vendem milhões de discos e arrastam multidões, também está acabando. Fora alguns fenômenos do mundo pop que se revezam, em média a cada cinco anos, não existe mais o interesse das grandes gravadoras em criar uma estrutura para apostar em novos artistas a longo prazo. O interesse é sempre pelo caminho mais imediato e estéril. Artistas e bandas que precisam lançar dois ou três discos e investir em divulgação para conquistar um público mais exigente e não circunstancial, acabam “optando” por criar esquemas por fora das gravadoras.  Alguns até conseguem ser absorvidos pelo “sistema”, como Arcade Fire ou Radiohead, mas quase sempre depois de já consolidados no cenário.

E a boa música, morreu? A resposta é categórica: não! Se faz muita música de qualidade em todos os cantos, em várias vertentes. Mas a maneira como esses trabalhos vão chegar ao ouvido de quem gosta de boa música é que mudou, e muito. Antes da popularização da internet, do download, e de ferramentas como o Youtube, o caminho natural da coisa era: a banda consegue uma gravadora, essa  se encarrega de distribuir e divulgar o disco e, se o público aprovasse, estava feito, todos ganhavam. A partir do momento em que aparecem novas maneiras de uma banda ou artista gravar e divulgar o seu trabalho, uma grande transformação ocorre nesse universo. Quem não é mais tão vendável em um período onde a venda de discos cai vertiginosamente, fica fora do esquema, e se quiser sobreviver, tem que criar seus meios. Essa transformação ocorre até hoje, e depois de tantos anos de pesquisa e dedicação forçada, as bandas aprenderam o caminho das pedras para administrarem suas empresas. Não quero dizer com isso, que as gravadoras estão obsoletas e não servem mais para nada, não é isso. Ainda são, na maioria das vezes, o melhor caminho para a ascensão. Mas já não são o único.

Nesse cenário, o ouvinte sempre teve um papel passivo, de esperar o que era peneirado pelas gravadoras e consumir o que já era determinado nos altos escalões da indústria. Praticamente tudo passava pelas salas dos executivos, o melhor e o pior, estavam todos lá disputando o seu espaço no mercado. Essa postura acabou criando certa acomodação por parte do consumidor, que de mero ouvinte passou a ter a quase obrigação de correr, garimpar, e descobrir onde está a boa música, seja a vertente que for. O ouvinte que ficar esperando grandes artistas aparecerem no meio das paradas de sucesso ou grandes veículos de massa ficarão cada vez mais frustrados e fatalmente sairão com o lugar comum: “não se faz mais música de qualidade, não como era antigamente” ou “ah, como era bom o rock feito nos anos 70”. No Brasil então “os anos 80 foram a década dourada do rock”. Sem menosprezar o velho saudosismo, mas isso tudo é papo furado. A boa música só não chega mais da mesma forma, os caminhos agora são outros, mais tortuosos, mas existem. O hype do momento é ser retrô, o velho com cara de novo está com tudo! Seria uma resistência do público ouvinte a encontrar a sua identificação com a contemporaneidade musical?

O cenário musical está em constante transformação, em todos os cantos do mundo, cada vez mais aparecem bandas e artistas dispostos a inovarem e fazerem música de qualidade, o que é muito difícil. Desde a década 50, em que os primeiros ídolos musicais de massa surgiram, o mundo da música já viu de tudo um pouco. Muito já foi explorado, às vezes a sensação que temos é que tudo já foi feito, e só nos resta buscar alento no passado, no já consagrado.

Daqui a 15 anos provavelmente eu e você estaremos vivos, mas talvez os nossos ídolos “daquela época da boa música” estarão mortos, ou inativos, e os estádios de futebol e grandes arenas ficarão restritos a sediarem shows de produtos de baixa qualidade da indústria fonográfica. Se a nova geração de bandas e artistas de qualidade, os que melhor dialogam com seu tempo, conseguir pavimentar seus caminhos para chegar aos ouvidos de mais e mais pessoas, e estas estiverem dispostas a se desprender das suas amarras, o mundo da música ainda terá muito a oferecer. O rock morreu. A boa música ainda não.


VMB 2011: MTV expõe suas contradições

Pra quem está antenado em música, e justamente por isso não vem mais dando bola pra MTV há um bom tempo, de repente nem sabia que iria ao ar nesta quinta-feira o 16° Video Music Brasil, ainda a maior premiação musical brasileira.

A edição passada do evento, 2010,  foi marcada por ser a mais fajuta e vergonhosa de todas as edições da premiação .  A emissora que há muito se afastava da boa música (desde 2007 para ser mais exato, quando a MTV anunciou que abandonaria os videoclipes) em 2010 fez uma premiação que ajudou a sepultar seu nome como uma marca de respeito entre a classe musical. Como não é boba nem nada, vendo que grande parcela dos músicos e o resto do público mais antigo, que um dia a levou a sério,  foram abandonando o barco.  A emissora acabou optando por reformular quase que totalmente a sua grade de programação, recorrendo a quê? Muita música! E muitos músicos! Mas deixemos isso para depois.

O fato é que essa edição da tradicional premiação, contou com coisas muito novas. Os coloridos simplesmente sumiram. Foram propositalmente jogados pra escanteio das possíveis premiações. O Restart até deu as caras por lá, mas somente pra fazer um discurso constrangedor acerca do vexame que passaram sendo vaiados por diversas vezes na edição passada, e entregar um dos prêmios da noite.  A presença massiva mesmo, em números de indicados, foi garantida pelas diversas cenas independentes que existem por aí. Vários dos expoentes da cena underground estavam presentes e/ou concorrendo.

Os destaques foram pra Criolo, que ganhou três prêmios: melhor disco (Nó na orelha), revelação e melhor música (Não existe amor em SP) e Emicida, que levou dois prêmios, os de clipe do ano (Então toma) e artista do ano. Criolo e Emicida têm vários pontos em comum, apesar de musicalmente estarem em fases bem distintas de suas carreiras. Representam uma renovação no rap nacional. A era dos discursos à La Racionais MC’s ficou pra trás. O rap agora é polido, arrojado e quebra vários de seus próprios tabus. Quer sair do gueto da mesmice novamente.

Caetano e Criolo

Além deles, diversas bandas deste cenário independente que fervilha pelos quatro cantos do Brasil concorreram ou se apresentaram na premiação:  Apanhador Só (RS), Marcelo Jeneci (SP) , Copacabana Club (PR), Mombojó (PE) e uma grande leva de artistas e bandas. Foram poucos os destaques desta edição que já gozam de um reconhecimento por parte do grande público. Dos premiados, o único que poderia ser considerado um dos grandes do cenário nacional, seria a Fresno, que ganhou a categoria mais ridícula da noite, a de melhor clipe molhado (?!).

No início do ano já era possível deduzir pelas clássicas chamadas estranhas da emissora, que algo iria mudar. E isso de fato aconteceu, a MTV esse ano girou totalmente a sua programação e seu foco. Foi buscar sustentação na cena independente, porque quer voltar a ser a “casa dos músicos”, da nova geração. Isto pode garantir para emissora alguma chance de sobrevida, de reaver o seu prestígio. Os veteranos foram deixados de lado para apostar muitas fixas no que está surgindo e o que há muito já existe, mas por fora do esquema da MTV. O que a emissora fez foi pegar alguns desses artistas, poucos se comparado aos tantos que lutam por aí, e preencher a programação com uma variada gama dos melhores expoentes de cada gênero. As apostas estavam sendo feitas.

Emicida, aposta mais promissora da MTV

Claro que os mais velhos também tiveram vez. Estavam lá marcando presença no VMB: Caetano, sempre muito espertinho (ou seria oportunista?), dando a benção para o “novato” Criolo. Foi um momento muito simbólico, mas algo corriqueiro em se tratando do Caê.  Maria Gadú não me deixa mentir. Arnaldo Antunes (VJ da casa), Erasmo Carlos, Marcelo Camelo, Marina Lima, Nação Zumbi, Marcelo D2, e mais um monte de veteranos de VMBs, que dividiram as atenções nos shows e também as indicações aos prêmios com diversos artistas de cenários que nunca tiveram vez na emissora. É o caso de Gaby Amarantos, Banda Uó e Garotas Suecas, que fazem parte do chamado “New melody” ou “New brega”. É o caso também de Michel Teló, representante do pavoroso sertanejo universitário, que não concorreu a nada, mas foi convidado a entregar um prêmio.

A MTV volta a apostar todas as suas fichas na música, contratando novos VJs com largo conhecimento e reconhecido prestígio no cenário musical, apostando em novas bandas e aumentando o número de programas  musicais. Mesmo assim parece ainda não ter decidido um rumo certo, apesar de ter dado um grande passo à frente. Ainda é muito cedo para dizer que essa jogada vá render muitos frutos, sinceramente não sei se Emicida, Criolo, Jeneci e afins, tem capacidade de garantir para a emissora o público e a publicidade que tinham com Restart, Cine e Nx Zero.

Cabe agora aos músicos brasileiros, tentar ocupar da melhor forma possível esse espaço que está voltando a se abrir. O VMB 2011 mostrou exatamente isso: artistas talentosíssimos dividindo espaço com outros muito aquém de serem apostados como os melhores de seu nicho. Nunca uma premiação da MTV tinha sido tão diversa e tão cheia de contradições. Ao mesmo tempo em que se propõe ser a casa de todos, se não acertar o rumo das apostas, pode ter que terminar recorrendo aos seus filhos menos ilustres, os coloridos do último verão, para salvar os investimentos dos seus acionistas.


Como começar?

Estava pensando sobre a minha primeira postagem, não que fosse algo a ser remoído por muito tempo, mas todo mundo quer começar bem, seja lá no que for começar. Resolvi chamar para me acompanhar uma figura ilustre, nada menos que Chico Buarque. Segue um ensaio sobre Chico e a resenha do seu novo disco, “Chico”. Batizar seus lançamentos nunca  foi muito o seu forte mesmo.

Ainda não decidi como vai ser estruturado o blog, nem a frequência. Mas pretendo publicar um post por semana, que irão variar entre ensaios sobre música, análises criticas, resenha de discos, e mais algumas coisas que eu ainda estou planejando.

Por hora, se divirtam aí com o Chico.

Não esqueçam de deixar os elogios entusiasmados para que eu siga escrevendo e achando o máximo! Caso tentem, mas não consigam, prometo ler com muito respeito.

Chico está velho?

A princípio a resposta pode parecer óbvia: claro que está! Afinal, 67 anos não é pouco. Minha avó tem só 5 a mais. Mas a pergunta não se refere propriamente à idade de Chico, mas sua relevância para o universo musical atual. Aí é que mora o X da questão. Chico Buarque, afinal, representa o que para a música nos dias de hoje? No aspecto artístico, que  importância  recai hoje sobre sua obra ?

Já virou um clichê atribuir tons de genialidade a tudo que Chico fez, e com um pouco de boa vontade, ao que ainda faz. Chico, no Brasil, é sinônimo de poesia e música de extrema qualidade. Justiça seja feita, ele fez por merecer tal status.  Ao lado de Caetano, Chico Buarque foi quem melhor traduziu o sentimento, em suas diversas esferas, de uma geração que questionara o status quo, seja na arte, na política ou no comportamento. Chico foi, sem sombra de dúvidas, o melhor porta voz que a geração brasileira influenciada pelo maio de 68 poderia ter. Era a figura de um artista militante, um compositor inquieto que sempre primou pela força de suas palavras, mas não somente.  Seu exemplo enquanto artista  engajado na transformação da sociedade, também gabaritou Chico por algumas décadas.

A partir dos anos 80, o lançamento de discos e turnês começou a sofrer uma substancial diminuição para Chico. Não se sentia à vontade no palco (mas isso fora desde sempre), as composições demoravam muito mais pra sair e as brigas com a gravadora impossibilitavam o artista de lançar seus álbuns. Ainda assim, essa época contou com pérolas de sua carreira.

Nos anos 90 a sua profusão criativa diminui ainda mais. Esclareço que ainda estou falando de sua música, que nessa época começou a dividir espaço com outra de suas paixões, a literatura.  Como resultado, lançou apenas dois discos de inéditas nesta década.

Adentrando os anos 2000, a média continuou a mesma. Sobre isso, Chico comenta no documentário musical Palavra (en)cantada que não via mais tanta relevância e possibilidade de alcance da sua obra musical. A literatura acabava representando muito mais para os seus anseios criativos. De fato, o verdadeiro artista sempre procura o desafio. A música, para Chico, não significava mais isso.

Chegamos ao presente. A realidade brasileira mudou muito nesses 40 anos. O cenário musical acompanhou essas mudanças. Não só a música se modificou, mas o mercado que ela movimenta também. As gravadoras não têm o mesmo poder de outrora, nem querem mais as mesmas coisas. O investimento em artistas é muito mais a curto prazo.  Os “velhos” não têm vez, e Chico está velho.

Acontece um fenômeno interessante com relação a Chico Buarque: o grosso do seu público, que compra o CD via internet, que lota os seus shows, gira em torno da faixa dos 25 e 35 anos. Geração essa, que não vivenciou o período de maior importância em sua carreira, mas que cresceu em contato com a sua obra. Sua música era algo mais palpável, estava ao alcance da mão há 15 ou 20 anos atrás. Com o passar dos anos, esse alcance foi diminuindo, o “novo” vem ocupando esse espaço. As gerações de adolescentes que estão surgindo enxergam Chico como algo que está enterrado no passado. O grande problema é que o novo não superou o velho. As porcarias que existiam há 40 anos se reformularam e estão sempre nos assombrando. Mas se nivelarmos por cima, o que está no lugar desses velhos?

Chico, Caetano, Gil e mais um monte de medalhões daquela época, não apitam mais nada no cenário musical. Caetano vem tentando se aproximar da juventude indie, tocando com uma banda extremamente jovem, fazendo parcerias com artistas novos, como Maria Gadú. Gil, depois de seus longos anos como ministro, voltou com estardalhaço, cheio de modernidades aliadas ao forró mais clássico. Não deu em nada.

Chico se manteve, como há muito vem fazendo, à margem do cenário. Quando quer, reúne uns amigos e grava um disco. Até se mostrou muito moderno com o lançamento de “Chico” (resenha a ser publicada em breve). Mas para quem assistiu aos vídeos exclusivos da pré-venda de seu último CD, pode testemunhar um Chico ainda avesso à forma como se trabalha com música hoje em dia. Mal sabe gravar suas próprias músicas no computador. E não faz nenhuma questão de “se adaptar” ao mercado. Chico sabe que sua época passou, não quer concorrer e disputar espaço com a geração que está chegando. Ele não precisa, seu público está lá. Claro que em número bem diminuto, mas ainda está lá, ávido por sua música e poesia, apesar de não representar para os dias de hoje, nem a sombra do que sua obra já fora. Chico envelhece com a dignidade que só um grande artista, ciente das demandas de seu tempo e de sua imensa contribuição para tais, teria capacidade de fazer.

A relevância artística de Chico Buarque já não é mais a mesma, e foi ele quem primeiro percebeu isso. Sua criação musical se resume a um disco a cada seis ou sete anos e os jovens praticamente não lêem livros. Não há mais espaço a ser conquistado nesse cenário. Fisicamente, Chico está velho.  Porém, sua poesia e sua dignidade artística estão intactas