Arquivo da categoria: Resenha de Discos

Crítica: André Matos – The Turn of the lights

Matéria que escrevi para o Collector´s Room

André Matos – The turn of the lights


Os 20 melhores discos de 2011

Bom, é de praxe todo apaixonado por música cair no clichê de ficar fazendo suas listas pessoais e comparando com a de outras pessoas ou críticos. Eu fiz a minha, que na verdade não é a lista dos 20 melhores, mas dos 20 que eu ouvi e mais gostei. Tem muito trabalho bom que saiu ano passado, figurou em muitas listas por aí mas que eu não pude escutar. Inclusive acho muito estranho as publicações especializadas em música divulgarem suas listas de melhores do ano em novembro. E os discos que saíram em dezembro, como ficam? Para que a pressa?

Fica aí a minha lista e dicas para escutarem os lançamentos de 2011 que primaram pela altíssima qualidade. Se em 2012 for melhor, o fim do mundo pode ter uma grande trilha sonora.

Lembrando que não está em ordem de qualidade, a lista é totalmente aleatória. Aí vão os primeiros dez. Semana que vem tem mais.

Björk – “Biophilia’

Tal qual a estranheza dos lançamentos dessa islandesa, está a inegável capacidade de soar sempre única. Não me lembro de nenhum disco ruim da Björk, e esse mantém a tradição. Talvez seu trabalho mais pretensioso, por ter saído em vários formatos de mídias, e por carregar fortes conceitos estéticos e que necessitam de várias explicações. É um disco muito complexo e que exige uma concessão do ouvinte, que está cada vez mais difícil de ter hoje em dia. É preciso se deixar levar. Assista ao fantástico clipe no link abaixo e tenha uma idéia melhor.

Destaque: Cristaline 

 

Tuneyards – “Who Kill”

Talvez o grupo mais inventivo, louco (no melhor sentido da palavra) e inclassificável do ano. A mistura de sons capitaneada pela soberba Merrill Garbus funciona de forma perfeita e caótica. Do mais singelo som de ukulele à distorção gritante do saxofone e os agudos roucos e potentes de Merril, é impossível ouvir esse disco de forma indiferente. Acaba sendo inevitável a pergunta “o que é isso que está tocando?” já na primeira faixa do álbum. Para quem quer ouvir algo que nunca ouviu antes e se surpreender em saber que tem muita música boa sendo feita por aí.

Destaque: Bizness

 

Karina Buhr – “Longe de onde”

Leia crítica aqui no blog.

 

 

Destaque: Carapalavra

 

Esben e The Witch – “Violet cries”

Aqui o papo é mais sério e um pouco assustador. Quem diria que o disco mais denso, mais assustador e mais perturbador desta lista seria de uma banda indie? Talvez nesta estranheza e surpresa inicial resida um pouco da receita para essa ímpar experiência que é a audição deste trabalho. Indicado para quem quer viajar pelos caminhos obscuros do consciente. Não é algo que se deva fazer toda hora, mas de vez em quando é necessário e aqui está a trilha sonora.

Destaque: Marching Song

 

Ana Calvi – “Ana Calvi”

A grande revelação do ano! Dona de uma técnica apuradíssima na guitarra e uma personalidade intensa, Ana consegue demonstrar através de sua música, carregada de climas pesados, as turbulências psicológicas que só a mente feminina é capaz de transitar. Nenhuma música lançada em 2011 consegue ser mais envolvente e sexy do que Suzane and I. Para ouvir imaginando um filme de David Lynch e se deixar levar por caminhos sombrios, mas inegavelmente belos. Uma das compositoras mais promissoras a aparecer nos últimos anos!

Destaque: Suzane and I 

 

 Criolo – “Nó na orelha”

O destaque nacional do ano foi esse cara, sem sobra de dúvidas. Todo mundo falando dele. Fez por merecer? Sim, e não precisa muito para chegar a tal conclusão. O trabalho apresentado por Criolo é digno de alguém que entende do riscado.  Tem rap, samba, trip-hop, reggae, soul e bolero, todos ritmos negros, seja da parte do mundo que for, e que encontram nesse belíssimo disco um porta voz sincero e talentoso do que é a música negra e como ela pode se transformar na mão de quem a conhece e sabe como sintetizá-la de maneira sublime . Discaço!

Destaque: Grajauex

 

BonIver – “Bon Iver”

Segundo álbum deste grupo dos Estados Unidos, e já foi o suficiente para mostrar uma banda detentora de uma imensa capacidade criativa e identidade forte. Foi um dos destaques nas listas de melhores do ano em sua terra natal e também na Europa. O som dos caras é uma mistura que em alguns momentos é extremamente psicodélico, em outros progressivo, passando por melodias mais simples e acertadamente pop. As músicas praticamente não tem refrãos e mesmo assim são capazes de prender o ouvinte e  levá-lo pra muito longe, mas não se estendem por intermináveis solos e viagens despropositadas. Uma maturidade adquirida cedo e quase uma garantia de ótimos futuros lançamentos dessa brilhante banda.

Destaque: Calgary

 

The Black Keys – “El Camino”

Leia crítica aqui no blog

 

 

Destaque: Gold on the ceiling

 

Adele – “21”

A mais nova diva do pop, mas daquelas que vale a pena escutar. Após o buraco deixado por Amy Winehouse nesse pequeno universo de qualidade que existe na música pop, Adele apareceu com um disco extremamente redondo, preciso e de muito bom gosto, agradou ao público em cheio e à crítica idem.  Não tem quem não tenha enjoado de ouvir Rolling in the deep, mas sempre acaba ouvindo de novo e gostando. Um disco extremamente acessível e igualmente belo. Não se deixe levar pela exposição exaustiva que esse disco teve, pode estar perdendo de aproveitar uma grande artista em seu pleno ápice e ainda em desenvolvimento.

Destaque: Rumor has it

 

Pain of Salvation – “Road salt two”

Esta é a segunda parte de um disco muito corajoso. Road Salt já demonstrava que os caminhos a seguir seriam outros para o P.O.S, estavam de certa forma dando adeus ao Heavy Metal. Nesta segunda parte, o espírito pesado do grupo volta a dar as caras, não em distorções, mas em densidade. É um trabalho mais emocional, muito mais climático que seu antecessor, e talvez por isso não consiga dar um passo a frente no caminho a uma audiência maior, e continue restrito ao público que está ligado no que tem de melhor no cenário Heavy Metal mas também busca o que está disposto a ir além. Uma pena não ter a atenção devida, mas não por isso deixa de ser um maravilhoso trabalho.

Destaque: 1979 


Crítica: The Black Keys – El Camino

The Black Keys – El Camino

Gravadora: WMG

Nota: 9,0

Apesar deste ser o sétimo disco da carreira dessa dupla estadunidense, somente ano passado eles acabaram aparecendo por aqui, com o lançamento do maravilhoso disco Brothers. Não deixaram passar muito tempo e aproveitaram o hype para logo lançar seu segundo álbum pós-fama mundial, “El Camino”. Um trabalho mais direto, mais rock se comparado ao álbum anterior, e mais parecido com seus trabalhos antigos.

O disco abre com uma de suas melhores músicas: “Lonely Boy”, com guitarras pesadas e ao mesmo tempo cristalinas, num ritmo swingado que explode em um refrão magnífico. De cara percebe-se o ótimo trabalho, não só nas composições, mas na produção do álbum, que ficou irretocável. O uso de várias texturas de guitarras e incursões de pequenos detalhes feitos por outros instrumentos (ora orgânicos, ora sintetizados), deu um molho muito especial ao disco, contribuindo para uma estética muito particular. Uma agradável sensação retrô que não soa fajuta, mas inteligentemente modernizada, como no caso de “Dead and gone”, com direito a coral com os dois pés fincado na música negra (meio psicodélica, diga-se de passagem), e um refrão caindo em um embalo surf music muito bem sacado (e um pouco mais envenenado… Diga-se de passagem).

Fica difícil apontar destaques em um disco tão redondo. É incrível como qualquer música poderia se tornar um single, tamanha uniformidade do álbum. Canções como “Gold on the ceiling” (pesada, grudenta e perfeita) ou “Sister”, uma faceta até então não explorada, e um destaque inesperado (imagine uma versão mais rock, bem mais rock, que o Michael Jackson dos anos 80), são hits certos, não tanto como uma “Tighteen up”, mas são. Ao mesmo tempo em que “Money Maker” e “Stop Stop” podem não tocar nas rádios, mas são daqueles rocks para levar os fãs ao delírio nos shows. Inclusive esse é um dos grandes talentos dessa dupla, a capacidade de criar músicas poderosas e que ao vivo conseguem ganhar ainda mais em intensidade. Mas confesso que “Litle Black Submarine” me surpreendeu com aquele final apoteótico, totalmente sugado das influências setentistas do grupo. Uma verdadeira pérola!

Mesmo assim, “El Camino” não consegue soar tão pop e inovador quanto “Brothers”, que possuía um conceito de imagens muito fortes, com clipes que se sobrepunham às músicas por alguns momentos. Em “El Camino”, o Black Keys está ainda colhendo os louros da grande exposição que teve da mídia musical e aproveitando para lançar um trabalho que resgata muito bem o que tem sido a sua carreira, mas não para nisso, continua apontando novos caminhos.


Crítica: O Teatro Mágico – A Sociedade do Espetáculo

O Teatro Mágico – A sociedade do espetáculo

Independente

Nota: 6,5

Terceiro disco de um dos fenômenos musicais mais interessantes a surgirem recentemente na cena brasileira. O Teatro Mágico, como quase todos devem saber, é o grupo liderado por Fernando Anitelli que mistura música (principalmente), dança, poesia e circo. Nascido em 2003 nos palcos alternativos de São Paulo e criando uma base solida de admiradores, o Teatro Mágico conseguiu se espalhar por todo Brasil, e hoje é um dos maiores grupos do cenário musical alternativo. “A sociedade do espetáculo” vai ser a prova maior da consistência do trabalho desse grupo.

É inegável e transparente o desejo de conquistar um espaço e público maior com esse lançamento. A gravação do disco ocorreu com a contratação de um produtor, algo inédito na carreira do grupo,  e que foi determinante para que a banda chegasse a uma síntese sonora maior. O problema é que o fruto dessa síntese é extremamente débil. O produtor do disco não foi capaz de salvar a banda de uma tentativa frustrada de atirar para todo os lados e ver no que dá. É exatamente essa a impressão que se tem depois de ouvir o disco:  uma banda tentando, sem conseguir, unir toda sua parafernália ideológica em um formato sonoro e estético pop-contemporâneo.

Na apresentação que o grupo faz deste trabalho em seu site, cita algo que de cara fica evidente ao se ouvir o disco: a influência fortíssima da sonoridade e o espírito criativo do Clube da Esquina. Se fosse somente isso, tudo estaria bem.

Próscenio abre caminho para a melhor música do disco, Além, porém aqui. Melodia interessantíssima com muitas explorações de ritmos feitas de maneira excepcional,  como o que de melhor o “Clube” já havia feito. Depois desse ponto já começam os problemas.  Amanhã… Será?, apesar de ter um apelo pop legal, na medida, e uma letra que remete aos conflitos árabes, acaba por cair em reducionismos baratos como “o post é voz que voz libertará”, e ainda em frases ambíguas  que vão aparecer ao longo do disco, em várias músicas. para citar um caso, nessa mesma faixa: “Amanhã… Será” / “Amanhecerá” . Humberto Gessinger já fez isso à exaustão, e depois de um tempo irrita.

Essa alternância entre momentos inspirados, outros nem tanto, e ainda outros de nenhuma inspiração, acaba por revelar certa imaturidade musical na tentativa de serem mais versáteis. Por exemplo: Transição é uma composição muito bacana, mas sozinha não consegue competir com a trinca de musicas ruins que vem depois. Eu não sei na verdade quem eu sou, é praticamente uma aula de auto-ajuda, mas com toques maiores de lirismo; Nosso pequeno castelo possui uma levada mais swingada que até poderia vir a calhar, mas descamba para uma pseudo-lambada de péssimo gosto e evolui para a próxima faixa, O novo testamento, com seu pragmatismo panfletário. O trecho final da letra diz: “Não poder se opor a dor é relevar a si, não poder se opor a dor é revelar a si, só”. Um primor de inocuidade e pretensão.

Para o final do disco estão reservados alguns ótimos momentos, que encerram o trabalho mostrando alguma esperança.  A começar por Folia no quarto, com uma melodia muito bem construída e uma letra impecável.  O único exemplo de uma balada bonita deste disco, sem cair nos arranjos canastrões que marcam firme presença em outras faixas, como em Você me bagunça, essa figurando como uma bela amostra de como o Teatro Mágico pode soar piegas  quando quer.

Depois de já estar quase entregando os pontos, fecham o CD com duas ótimas canções: Esse mundo não vale o mundo e Canção da terra (uma clara e interessante defesa de opinião e demonstração de apoio aos movimentos de luta pela terra).

É preciso ressaltar a importância que o Teatro Mágico tem no cenário atual, sendo uma banda que optou corretamente por brigar pelo espaço no mainstrean e mostrar um universo musical diferente do dominante para toda uma geração de jovens em idade de entender de música. Se nivelarmos por baixo, veremos que o Teatro Mágico está muito acima da média se comparado as bandas que hoje ditam os parâmetros do que é música popular no Brasil. O grupo de Anitelli Faz discussões sobre temas interessantes e tem um bom discurso. Mas se nivelarmos por cima, podemos enxergar que o Teatro Mágico não apresentou nada de artisticamente relevante e consistente que já não tivesse sido explorado anteriormente, em nenhum de seus aspectos (o circo, teatro, poesia e a música). Ninguém vai conseguir reinventar a roda, sem que essa tentativa soe fraudulenta aos menos incautos.


Lançamentos Nacionais!

Lenine – Chão

Gravadora: Universal Music

Nota: 9,5

Há tempos que Lenine é tido como um dos grandes nomes da nossa música. Desde 97, com o lançamento de O dia em que faremos contato, que o compositor vem construindo uma sólida carreira e de muito prestígio entre público e crítica.

Com o lançamento de Chão, seu décimo disco, essa história não vai ser alterada, e ainda por cima Lenine nos dá mais uma prova de que esse reconhecimento é mais que merecido. Chão chega carregado de conceitos e uma mudança bem significativa na formação da sua banda. Agora estão com ele seu filho Bruno e o único remanescente da sua antiga banda, JR Tostói, responsável também pela produção do disco junto com Lenine. Este conceito está expresso de maneira simbólica por todas as faixas que compõe seus pouquíssimos, mas certeiros, 28 minutos. A faixa de abertura, que dá nome ao disco, inicia com sons de passos dando o ritmo forte da canção, entrecortado por batidas eletrônicas e o violão sempre característico de Lenine. A letra nem se fala, um primor de poesia! De cara, umas das melhores de sua carreira.

O conceito de chão é bem abrangente, nas palavras de Lenine: “é tudo que nos sustenta”. As faixas são todas bem curtas, sem muita repetição de refrões e com muitos sons, os chamados ruídos, que permeiam todas as faixas. Essa é uma característica fundamental do disco: ele é muito moderno em toda sua estética, mas sua espinha dorsal é extremamente orgânica. Os canários ao fundo de “Amor é pra quem ama”, só não dão à canção um tom piegas porque completam uma unidade muito inteligente com o resto do disco. O batimento cardíaco de Bruno, filho de Lenine, também se faz presente na ótima “Se não for amor, eu cegue”.

Outra que deve entrar fácil na lista de melhores canções do disco, é “Envergo mas não quebro”. Que violão, que pegada, que bom gosto! Ah, e os ruídos no fundo são de uma moto-serra, que no fim parece derrubar uma árvore (ops!).

Os ritmos das canções estão muito mais experimentais. Quem conhece Lenine sabe que um de seus pontos fortes é justamente pelo deu domínio de variados ritmos, que neste disco aparecem muito mais diluídos, dando espaço para algumas pérolas inovadoras como “Tudo que me falta, nada que me sobra”, com um duelo de violões frenéticos, gravados em camadas, que dão um peso absurdo a música. Outro momento de altíssimo nível.

Seria muito mais fácil para Lenine se acomodar e fazer mais um disco com duas ou três músicas para tocar na trilha de alguma novela global, com a sua velha pegada rítmica e cara de “bom produto regional”. Mas Lenine sempre foi mais que isso. Seus discos sempre representaram passos interessantíssimos dentro de um cenário musical muito acomodado a velhas formulas. Com Chão, a discografia de Lenine ganhou um de seus melhores exemplares. Flertou de maneira sublime com ferramentas de estúdio e compôs uma mini-suíte moderna, digna de um artista que goza de sua plena maturidade e consciência musical.

Karina Buhr – Longe de onde

Gravadora: Coqueiro Verde

Nota: 9

Estamos acostumados a todo ano ouvir a mesma história: surgiu a nova salvação da MPB! Viva a redenção da nossa “boa” música! Primeiro, o que é MPB? Antigamente, era como a sigla sugere: Música Popular Brasileira. E o que significa hoje essa denominação? Muita coisa mudou desde então. Mas a necessidade de classificar e rotular tudo coloca no mesmo balaio da tal MPB qualquer coisa que tenha um traço mínimo do que seja música brasileira, dita de raiz. Segundo, quem disse que esta precisa ser salva e quem seria o pretensioso?

Mas por fora de todo esse papo furado, vez e outra, surgem artistas que inspiram-se na nossa riquíssima música para criar uma nova identidade. Não querem salvar nada, mas dão uma contribuição muito maior que os tais salvadores. Esse é o caso de Karina Buhr (ex-Comadre Fulózinha, entre outros), que lança seu segundo disco em carreira solo apenas um ano depois do lançamento de seu ótimo álbum de estreia, Eu menti pra você. Seria uma tentativa de aproveitar esse momento de exposição que veículos como a MTV vêm dando a artistas do cenário independente?

Longe De Onde, segue um caminho muito parecido com o de seu antecessor, apostando em um formato estético bem ousado. O álbum usa uma formação de banda muito interessante, com dois guitarristas extremamente talentosos, Edgar Escandurra e Catatau, e contando com Mau no baixo, bruno Buarque na bateria e sintetizadores, e Guizado nos trompetes.

Porém as letras e os arranjos desse novo disco estão mais densos, transitando por caminhos um pouco mais ousados. A coisa toda inicia com “Carapalavra”, com uma levada quase punk e suas guitarras distorcidas, dão o clima visceral que estará presente em outras faixas. O clipe também é maravilhoso! “Guitarristas de Copacabana” vai por esse caminho, mostrando a verve ácida de sua crítica social. Esse clima culmina em “Copo de Veneno”. Maravilhosa canção, com letra impecável e arranjo maravilhoso. Os metais contrastando com a sujeira das guitarras perfeitas de Scandurra e Catatau caíram muito bem, mostrando bom gosto e certeza dos caminhos que Karina quer trilhar.

Acho muito gratificante, e irônico, quando se ouve uma música como “Cadáver”, que faz você ter vontade de dançar ouvindo frases como: “Sua dúvida é produto da sua escravidão, mantenha então sua sanidade em defesa do seu estômago”, ou, “Porque o tempo vai passando e suas qualidades vão sumindo, e seus defeitos aparecendo cada vez mais, cada vez mais, cadáver!”. O ritmo alegre da canção possibilita a Karina jogar na cara do ouvinte coisas como estas sem que tudo pareça uma tragédia auto-indulgente. Melhor faixa do álbum, disparada!

Esse é apenas o segundo disco nessa nova fase da sua carreira. Com certeza vai servir pra consolidar seu nome no cenário nacional, ainda não como uma das “salvadoras da MPB”, por sorte, porque elas são muito chatas e Karina… não. Longe de Onde, é mais experimental e menos alegre. Mostra Karina mais madura em sua poesia e disposta a encarar desafios. Não é um disco que possua vários hits pra tocar em rádios nem vai ser a nova sensação. Mas pavimenta com solidez os seus futuros trajetos musicais. Não via nada tão consistente e promissor no universo das cantoras/compositoras desde Adriana Calcanhotto. Já era passada a hora de Karina chegar.

Chico Buarque – “Chico”

Gravadora: Biscoito Fino

Nota: 8,5

Confesso que não tinha muitas esperanças de que Chico lançasse algum disco tão cedo. Depois de pouco tempo desde o lançamento de “Leite derramado”, sua última aventura literária, Chico surpreende os fãs com o anúncio de que estava gravando um disco e este teria todo um esquema inovador de pré-venda pela internet. Quem comprasse o disco antes de ele chegar às lojas poderia ter acesso a vídeos exclusivos no site do compositor, em que mostrava o making off da gravação e entrevistas exclusivas com os músicos e com o próprio Chico, fora que poderia conhecer algumas músicas antes de todo mundo.  Foi um esquema bem bolado, e que deu certo, a pré-venda do disco foi muito bem sucedida em cifras. E ainda de quebra mostrou um Chico disposto a dialogar com novos formatos de veiculação de mídias.

Já faz bastante tempo que os lançamentos musicais na carreira do compositor têm ficado cada vez mais espaçados. Os cinco anos que separam “Chico” de seu antecessor “Carioca” até que foram bem curtos se analisarmos a retrospectiva das últimas décadas. Mas o que parece um detalhe, a demora em seus lançamentos, nada mais é do que a representação mais direta do que significa a música para Chico nesses últimos 15 ou 20 anos: uma atividade que se faz quando se tem vontade de fazer, já não é mais um trabalho, é um hobby.

O disco conta com pequenas pérolas, todas as canções são de alto nível, mas composições como Querido diário, que abre o disco, soa como uma confissão de uma pessoa velha sobre uma vida solitária. Nada glamorosa. Essa escolhida pela revista veja como a música com o verso mais feio da MPB: “amar uma mulher sem orifício”. Chico continua incomodando. Essa pequena é um blues, nada comum na obra de Chico, com uma letra magnífica. O dueto com a sua nova namorada, Thais Gulin, em Se eu soubesse, parece ter dado todo um clima muito verídico, muito vivo a canção, a sensação que se tem é de um casal fazendo as mais íntimas e belas confissões em público. Maravilhoso. Nina é uma valsa que conta a história de um casal que namora pela internet, ele no Brasil e ela na Rússia. É tão difícil usar referências atuais na poesia, como encaixar um tweet em uma história de amor, ou um encontro no “face’, mas Chico usou esses recursos e construiu uma de suas mais belas poesias nessa canção: “Nina diz que se eu quiser eu posso ver na tela, a cidade, o bairro, a chaminé da casa dela.” E conclui de forma soberba: “Nina anseia por me conhecer em breve, me levar pra noite de Moscou. Sempre que essa valsa toca, fecho os olhos, bebo alguma vodca… E vou.”

É nítido que a poesia de Chico está mais simples, mas como síntese, não como pobreza. Isso às vezes cria uma imagem de desleixo, que é uma grande mentira. As pessoas, incluo obviamente o artista nessa lista, ao envelhecerem, ficam mais simples, é normal. Excluam dessa lista os senis. O fato é que Chico continua mestre na arte de dialogar com sentimentos da maneira mais completa. Mais rica, e mais bela. É muito mais recompensador ouvir Chico de muito em muito tempo, mas ainda tendo algo de relevante para mostrar, ao vê-lo satisfazendo seus fãs e lançando discos medianos todos os anos. Posso esperar mais cinco ou seis anos até o próximo, acho que vai valer a pena.